
Ali estava eu novamente naquela rodoviária escura, deprimente, com seus tijolos à vista, seu ar absolutamente poluído pela fumaça de óleo diesel, aquele cheiro repugnante de pastel frito em gordura rançosa, aquele chão imundo, nojento, escorregadio de tanta sujeira mal limpa. Não tinha saco para aturar aquelas viagens, aquelas duas horas de espera naquele restaurante ensebado, lendo até o último rodapé do jornal já todo amassado e ouvindo o som estridente de uma novela global que vinha da televisão enorme e velha, pendurada na parede.
Enfim, não havia como escapar destas viagens monótonas e cansativas e imaginando que se sentaria ao meu lado um velho fedorento, que tiraria o sapato durante a viagem e roncaria a noite toda, babando e tombando a cabeça sobre mim, pois era o que sempre acontecia; já me encontrava em estado de perfeita depressão, não bastasse a merda de vida que vinha levando e todo o desgosto de ver o mundo se desmanchando, o país sendo espoliado, vendido a preço de banana e eu, nós, pagando o preço com nossa carcaça carcomida e nossa inteligência espezinhada. Achava até que o bilheteiro fazia de sacanagem, quando me vendia a passagem, escolhendo sempre aqueles tipos para sentarem-se ao meu lado. Talvez devesse mesmo conversar com o bilheteiro na próxima vez, para que ele parasse de me sacanear, malgrado sua cara de poucos amigos.
E ainda por cima armava-se uma chuva que, parecia, seria bem forte. Muitos raios e trovões sobre a velha e fétida rodoviária. Tudo para me afundar ainda mais em minha já costumeira depressão.
Embarquei finalmente naquele ônibus amarelo, completamente deprimido e puto por ter de continuar assim, nesta vida sem sentido, me sentindo um trapo, pela vida que vivia, pela vida que não vivia, pelas pessoas que viviam e que sequer notavam esse fato, mas, talvez também por conta da meia dúzia de garrafas de cerveja que bebera, na esperança de que me fizessem adormecer durante a viagem, mesmo que me viesse aquele sono nauseado, cansado, que me provocava aqueles sonhos de delírio, pesadelos de noites mal dormidas, ou mesmo mais um ataque de claustrofobia terrível. Tudo uma merda. Até a revista separada para os primeiros momentos da viagem, ou, quem sabe, para a viagem toda e que agora, jazia, páginas abertas, sobre o meu colo, pois ainda mirava na janela aquele movimento de rodoviária, que já se tornara um vício esta observação mórbida, até que o famigerado ônibus resolvesse partir e parece que este motorista não tinha pressa alguma em partir, em sair daquela mixórdia.
Mas eis que, aleluia! Liga-se o motor e – oh impaciência das impaciências – o mastodonte começa a mover-se, como que se espreguiçando, como se preguiçosamente acordasse de um sono profundo. Mais lentamente ainda vai deixando aquele antro fétido para ganhar a noite, e o ar gélido da noite, e a escuridão da noite, e a tempestade que aquela noite anunciava. Deus meu, que saco! E por que este eterno vício de olhar pela janela, ainda que não se visse nada.
O que se pensa, quando nada se vê? Ou quando se pensa que nada se vê?
Acho que não se pensa nada; realmente não pensava nada. Estava vazio meu pensamento, vazia minha mente, minha alma, vazia minha vida. Vazia a estrada, a noite, as cidades, o mundo. Tudo vazio, tudo um imenso nada – o éter que nos embriaga – o nada absoluto. O vazio de corpo e alma.
E o que se vê, quanto tudo é nada, quando não se pensa em nada?
Não sei o que se vê, não sei o que se via. Vista embaçada, embaraçada, como minha própria vida, parca existência. Claro que tudo isso por culpa minha, pela falta de sucesso, pela falta de conhecimento, de reconhecimento, de entendimento, de procedimento. Falta de empenho? Falta de estudo?
Súbito aquela voz, doce, angelical, que me penetrou o mais profundo do meu ser, sem aviso, sem qualquer preparo:
- Moço, moço, o senhor é economista?
Como? Quem é este ser que sentado ao meu lado ousava inquirir-me, numa noite destas, num local como este? E sentada ao meu lado? Uma garotinha, uma menina - de sei lá 9, 10 anos - com seu vestidinho branco, extremamente branco, tão bem arrumadinho, como que se colocado agora, neste instante. E seu rosto? Não saberei descrevê-lo. Tão simples, tão limpo, tão cortês, tão aberto, ingênuo, puro até. Parecia-me translúcido, cristalino, etéreo.
Não, não sei mesmo dizer sobre aquela menina nada que possa de alguma forma descrevê-la. E não sei dizer o porquê de agora não poder falar quase nada sobre ela, de ter minha memória turvada de sua imagem. Mas sua voz me é nítida, clara, como se ainda a estivesse ouvindo bem ao meu lado. Clara e serena, com uma dicção diferente, mas perfeita, e com a utilização também perfeita da linguagem, fazendo as concordâncias sempre corretas, que a princípio me causou irritação, como estas crianças extremamente bem educadas que beiram o pedantismo imposto por pais orgulhosos, e que nos dá ganas de estrangulá-las, só para ver se seus pais achariam também uma gracinha seus estertores finais. Mas não ela que, contudo, transmitia serenidade sim, e simpatia ou, talvez melhor, uma empatia irresistível.