Estela. Capítulo II - A NOITE

Escrito por Cleisson

Estela

 

II- A NOITE

 

- Não, menina, não sou economista, respondi, até meio de má vontade, enquanto ficava encafifado em como, ou quando, esta menina teria sentado ao meu lado, sem que eu tivesse de algum modo percebido.

- Mas o senhor se interessa pelos problemas atuais? Voltou ela.

- Mas por que você me pergunta estas coisas? Perguntei.

- Porque o senhor estava lendo uma reportagem que trata destes temas, embora esta revista não seja das melhores; mas pelo menos traz algumas informações úteis. Me parece que o senhor gosta de política, economia, essas coisas que mexem com as pessoas hoje em dia.

Que diabo! Eu nem sabia mais qual revista tinha sobre as pernas, que por sinal estava aberta em sei lá qual página. Era realmente uma pentelhinha que tinha se sentado ao meu lado. Nem sabia mais qual seria o pior se o velho fedido e babão ou uma garotinha pentelha. Enfim a sina de minha vida num ônibus.

Procurei virar-me novamente para a janela, num claro gesto de quem não quer papo, como eram meus hábitos de viajante solitário. Não quero papo e nem demonstrações de companheirismo ou solidariedade humana. Não queria nada, nada (como sempre o nada) que viesse de quem quer que fosse. Queria apenas sossego, solidão e noite escura. Queria paz.

- O senhor teria melhor sorte se se preocupasse mais consigo mesmo ao invés de ficar se preocupando com as coisas da vida. Na verdade o senhor não poderia influir nos assuntos da vida, nas resoluções que orientam a humanidade, ou melhor dizendo, o senhor influencia sim, em tudo, mas talvez não voluntariamente. Apenas o fato de o senhor existir já é uma influencia em tudo o mais que possa existir. Contudo pode melhorar, e muito, suas relações e ajudar aqueles que lhe são próximos para que, pelo menos, venham a ser um pouco mais felizes. O mundo tem quem o domine e que se julga seu dono, dono das coisas e das pessoas. Os que se consideram donos do mundo, superiores aos seus semelhantes, não permitem que o senhor, ou qualquer outra pessoa, pense, aprenda e venha a entender um pouco que seja sobre a existência ou mesmo sobre sua própria vida. Se permitissem que todos nós conhecêssemos, um pouco que seja, sobre a própria existência, sobre a nossa própria civilização, sobre a nossa própria sociedade, sobre nós mesmos, teriam muito mais dificuldade em dominar-nos, em dominar essa mesma sociedade. É até triste constatar isso, mas a verdade é que o mundo tem dono.

Escuta! Mas que absurdo é este? Deus do céu, que diabo, a pentelhinha quer mesmo me torrar o saco. Será que é o carma que me atraí uma figurinha destas. Que vontade de mandá-la à merda. E por que se meter em minha vida? Será que ela ao menos me conhecia? Saberia quem sou? Por que este papo furado? Aonde é que está a mãe desta tranqueirinha, que eu vou reclamar, pedir para trocar de lugar, sei lá, fazer qualquer coisa que me livre desta anãzinha.

E, enquanto penso estas coisas, lá vem ela novamente, como se meu pensamento não tivesse o dom de calá-la.

- É que a vida não nos pertence impunemente.

Grande sacada, pensei. Será que estaria á frente de um destes geniozinhos que jogam xadrez aos três anos e que aos seis já falam três idiomas, e entendem tudo de computador e de controle remoto? E se assim fosse? Seria realmente o fim ter que aturar toda aquela viagem ao lado de um demoniozinho destes. E se ela resolvesse falar a noite inteira? Acho que desceria no meio do caminho.

Por via das dúvidas resolvi que o melhor era perguntar-lhe algo que não pudesse responder, talvez assim me deixasse em paz pelo resto da noite. E, pensado, feito, perguntei-lhe:
- Impunemente? Você sabe o que é a vida?

- Bem, tenho pensado algumas coisas a respeito da vida. Não se pode entender a vida, ou o que seja a vida, se não deixarmos de lado toda a valorização da vida. Toda vez que alocamos valor a alguma coisa nós deixamos de entendê-la. A vida é como é.

Todos os seres são vivos. Toda a organização daquilo que entendemos como matéria é semelhante, é igual. O que chamamos de vida é apenas uma organização da energia e energia é o próprio universo; na verdade são a mesma coisa. Costumamos chamar de vida aquilo que possui a característica de modificar-se e reproduzir-se, até desintegrar-se, ou sofrer uma modificação tão intensa que deixa de ter suas características peculiares, tudo de forma que podemos percebê-la visualizá-la. E essas modificações serão tão lentas ou tão rápidas conforme critérios do observador, assim como serão semelhantes ou diferentes das modificações que outros seres chamados inanimados sofrem, segundo os mesmo critérios. E cuidado, porque aqui se observa as mesmas premissas que a física coloca quando se observa uma partícula qualquer, ou seja, o ato de se observar altera a natureza da própria vida observada.

E os homens, com sua mania de classificar tudo, como se fossem sempre colecionadores de selo, classificaram aquilo que os rodeia em seres inanimados e seres vivos, baseando-se apenas nas característica das modificações e na estrutura observadas. Perceba que falo lentas ou rápidas em função daquela noção de tempo peculiar a nós, seres humanos, mas sabendo que esta noção também é uma percepção completamente errada. Mas, enfim, serve ao nosso raciocínio. A vida não possui em si nada de excepcional ou misterioso. Nós, seres vivos, temos as mesmas finalidades de todos os seres da existência, ou seja, cumprir as leis que determinam nossa própria existência. Compete a nós existir e propugnar para fazer sempre existir, para que se eternize cada átomo do universo, que dicótomo, procura ser o que é, ao mesmo tempo que quer modificar constantemente tudo o que é.

Nada no universo tem alguma finalidade específica, a não ser a de simplesmente existir. Nem os seres humanos.

E veja que tudo se modifica, tudo se cria, se recria e morre, em tempos os mais diversos, como lapsos de segundos ou bilhões de anos luz.

A vida tem realmente características próprias, especificas, que devem ser respeitadas. Mas o que é que não deve ser respeitado? O que é que não deve ter seu valor reconhecido e respeitado? Será que aquela rocha, ou aquela pedrinha que jogada na estrada é pisada por todo pneu que aqui transita, não devem merecer nosso respeito, por serem simplesmente o que são? E aquele ser vivo, que não vejo, por ser microscópico, mas que me rodeia e que me habita até, não merece o meu reconhecimento, por que não me comunico com ele? E o ser que me rodeia? E o que me é caro, me merece consideração ou afeto, uma vez que o reconheço, que o vejo, que o classifico e lhe dou nome? Por que duvidar da existência? Por que separar, e classificar, e valorizar, e duvidar, se o que vejo é apenas o que vejo, e o que ouço está apenas nos meus ouvidos, e aquilo que reconheço ao tocar depende de minhas mãos e de meu tato?

Ao mesmo tempo, o que imagino, o que sonho, não depende de nada, não tem limites, não tem medidas, é livre, ocupa todo o espaço, ocupa todo o tempo, sem que se tenha que medir este espaço-tempo. Ah! Mas aí vem novamente a comparação, com aquilo que pretende-se realidade, com a única finalidade de se confirmar não ser apenas imaginação, sonho. Realidade? A vida é sonho ou realidade? 

A vida é isto, é ser, é estar, é o poder sentir, pois que todos os seres sentem. Viver é perceber as diferenças, em si e em volta de si mesmo. Não há muito mais segredos na vida que haveria em toda a existência. Só que nós nos tornamos sempre angustiados pelo fato de vivermos sem que possamos notá-lo, sem que possamos de alguma forma medir com exatidão o fenômeno que denominamos vida, sem que possamos saber o que é, de onde vem, qual a finalidade, enfim, pra que o existir, para que haver vida? Excessivamente egoístas, imaginamos que a vida possa ser de alguma forma diferente, superior até, a tudo o que não se comporta como nós. Vícios da humanidade que, muito infantil em seus parcos anos de existência, não consegue sequer vislumbrar um átomo da existência! A vida é o existir, como tudo que há, como um neutrino, como um bóson ou um méson qualquer, como uma pedra jogada na rodovia, ou como um anjo do Senhor.

E digo impunemente porque penso que a vida, a própria existência, trás consigo obrigações e sofrimentos inexoráveis.

- Espera aí! Primeiro, por que é que você está conversando sobre essas coisas comigo e, segundo, você está querendo me dizer que a vida, o ser humano, é igual a uma pedra, a uma lata velha, a uma garrafa de cerveja? Que não há diferença entre um ser vivo e um mineral qualquer? Então tudo que aprendi na escola estava errado? Quer dizer esquentei os bancos de escola, ralei minha bunda no estudo à toa?

- É na verdade estou dizendo bem isto mesmo. Não há diferença palpável entre as coisas que existem, quer tenhamos consciência delas ou não. Mesmo o tempo que nós observamos com as mudanças que medimos não mostra diferenças entre as coisas e os fenômenos. Mas eu salientei também, que este tempo é fruto de uma observação peculiar do ser humano, que não é absolutamente algo real ou, melhor dizendo, algo que realmente exista em toda a natureza como um ente próprio, independente. Em todo o universo, se eliminarmos o homem como observador dos fenômenos, não há como saber se eles realmente existem da maneira que os observamos, mas ainda assim podemos dizer que devem existir, porque não dependem de nós em absolutamente nada. Assim também é o tempo; assim também são os entes, os seres, vivos ou não.

O tempo existe para cada ocorrência que venha a acontecer no universo; cada ocorrência cria seu próprio tempo. Por isso as coisas são simples, são facilmente inteligíveis. Elas são o que são, e são todas iguais. Tente eliminar o tempo que existe em cada fenômeno, e estarão todos inertes, e serão indefinidamente todos iguais. O tempo é criado a cada efeméride, a cada singularidade, a cada interação que venha a ocorrer, e está preso a este acontecimento. Por exemplo, quando um átomo gera um fóton ele cria concomitantemente um tempo para esse fóton. O tempo que nós humanos percebemos e contamos é o tempo criado quando ocorreu o Big Bang; é o tempo do nosso Big Bang Então observamos esse tempo e medimos tudo, comparamos tudo, compreendemos tudo em função dessa observação.

Bom, quanto à outra pergunta, e eu gosto de conversar, trocar ideias, aprender; só por isso é que puxo assunto, e vou falando pelos cotovelos; mania, me perdoe.

- Opa, isso foi meio difícil de entender; acho que tomei muita cerveja.

- A dificuldade é que nós não conseguimos raciocinar de forma totalmente isenta, porque temos uma história de desenvolvimento, toda uma linha filogenética, da qual dificilmente conseguimos nos livrar, pois é inerente a nós, enquanto nossa forma de pensar, nossa forma de desenvolver um raciocínio qualquer, nos foi ensinada, não é inerente. Conseqüentemente pensamos baseados numa lógica dada e tida como a maneira correta de raciocinar e de obter uma conclusão certa, ao mesmo tempo que não nos livramos de nossa natureza. Mas nós observamos também que toda uma linha de raciocínio que possamos estabelecer e ter como correta, para certas pessoas será ininteligível e elas não conseguiriam atingir conosco a mesma conclusão, que sendo “lógica” para nós, para elas parecerá um erro grosseiro. Provavelmente estas pessoas estarão utilizando bases de pensamentos diferentes dos nossos e não poderemos dizer que estarão elas erradas. Terão apenas culturas diferentes, bases filosóficas diferentes.

- Eita que você fala muito complicado; estou ainda perdido naquela coisa de igualdade e você já está falando em tempo, pensamento, sei lá...E se entendi bem você disse nosso Big Bang; será que existiu outro?

- Sei lá, mas se existiu um porque não poderia existir outros? E a verdade é que não é nada complicado; é que para entender uma coisa precisamos entender outras, mas no fim tudo se ajeita. Bem, se tentarmos nos eximir de sermos o observador do fato poderíamos, sim, compreender a igualdade das coisas. Mas nem por isso deixaremos de reconhecer sua beleza, sua magnanimidade. A grandeza de existir está em tudo e em todos; a existência simplesmente é bela e é grande, imensurável para nós, e aí se perde novamente a humanidade, que não consegue desenvolver qualquer percepção ou qualquer linha de raciocínio se não tiver frente a si algo que possa de alguma forma ser mensurável. Até os sentimentos nós procuramos mensurar, sem que se possa na verdade sentir os sentimentos alheios, para conferirmos a dimensão que julgamos nestes sentimentos. O importante é que tenhamos a mente aberta e a vontade de aprender alguma coisa. Assim poderemos entender de vida, compreendê-la um pouco melhor e aceitá-la, não como uma dádiva, mas como coisa natural; sim como uma pedra, uma lata velha ou como uma garrafa de cerveja, tendo os mesmos valores, as mesmas formas e constituição, a mesma origem e o mesmo destino, a mesma grandeza de existir e de fazer parte de um todo e portanto, ter em si a dignidade que todo ente possui.

Agora veja, como seriam os sentimentos alheios? Será que se assemelham aos meus, ou, dizendo de uma outra forma, será que os outros sentem da mesmo forma que eu sinto?

E as coisas que observamos, será que são realmente como eu as observo, ou será que são da forma que a minha mente as elabora, da maneira como a minha mente pode aceitá-las e entendê-las?

Então é muito fácil aceitar e entender que as coisas podem ser diferentes de uma pessoa para outra. Por isso é que o que importa é a mente aberta, a busca contínua, mesmo que se encontre outras maneiras de se observar e entender um mesmo fenômeno.

- Eu não entendi. O que você disse que é inerente?

- Eu disse que nós, seres humanos, temos uma história de desenvolvimento que se confunde com a própria origem, não especificamente a origem do ser humano, mas a origem de tudo. Nós temos uma integração total com o todo do qual fazemos parte. É como se nós fossemos ao mesmo tempo o todo e suas partes. Na verdade tudo é assim. Cada parte do todo contém em si o todo.

Enfim, nós temos todo um caminho de humanidade percorrido, nós trazemos em nós a herança, a lembrança hereditária de toda a evolução de nossa espécie e de todas as espécies. Isto é inerente, não depende de nós, de nossa vontade. Não fomos nós que determinamos que as coisas fossem assim e como não dependem de nossa vontade, nós também não podemos modificá-las Como não podemos modificar nossa memória genética, hereditária, voluntariamente.

Por outro lado a nossa maneira de pensar, de analisar as coisas, de aprender voluntariamente, conscientemente, nos foi ensinada, não é inerente. Este ensinamento se perde na memória dos tempos, mas é um ensinamento. A filosofia vem nos ensinando a pensar há milhares de anos. Nosso aprendizado consciente é uma somatória de tudo que a espécie humana vem aprendendo ao longo de sua história, de toda filosofia, todas as artes, todas as ciências, todas as religiões, mitos, crendices, experiências as mais diversas, todo um longo caminho de criação de uma cultura própria de nossa espécie. Esta dicotomia entre o que nós somos – inerente – e o que pensamos – aprendemos – é que cria um dos conflitos do homem e que dificulta sua compreensão das coisas. Esse conflito é uma das causas de não conseguirmos apreender o que está ao nosso redor, muito menos o que está dentro de nós.

O homem não consegue ver nada corretamente, porque aprendeu a ver as coisas que o cercam, aprendeu a ver-se a si mesmo, e este aprendizado é incorreto e por isso limitante. Seria preciso que se reiniciasse o aprendizado para que o homem pudesse realmente entender um pouco sobre a existência. Só assim seria possível entender quando digo que tudo é uno, que tudo é parte de um todo e que cada parte tem a mesma importância que a outra, e que cada parte tem a mesma importância que o todo. É uma nova visão.

- Uma nova religião, ou uma nova ciência?

- Não, claro que não, mas desta forma podemos entender então que todos os seres são idênticos entre si, que têm o mesmo valor. O exemplo que usei, comparando um homem a uma pedra, é um exemplo que na verdade, não é mera imagem, não é mera figuração. É assim mesmo. Também por isso é que dizemos que tudo deve ser valorizado, respeitado, amado mesmo. Tudo deve ser tomado como fazendo parte de nós mesmos. Afinal temos a mesma origem, o mesmo caminho, o mesmo destino. Realizamos as mesmas coisas, somos unos.

- Se é assim então quer dizer que não há, ou não houve uma criação, ou ainda “A” criação, que criasse as coisas de forma diferente umas das outras, cada qual com sua forma e sua essência? E, se é assim, não existiria também um criador, um ser superior ou sei lá o que for?

- O problema do homem é a sua total insignificância frente aos macros fenômenos que é capaz de observar. Por outro lado ele também observa a grandeza de suas capacidades frente ao mundo limitado que o rodeia em seu planeta, quer animado ou inanimado. Pois as culturas primitivas não temem o trovão? Não têm o sol ou a lua como deuses? Mesmo os ditos civilizados já não quiseram perguntar se os deuses não seriam astronautas, habitantes de outros mundos, seres alados em seus discos voadores?

Primeiro vemos os homens impotentes quando atingidos por grandes e estranhos fenômenos que os atormentam e os machucam; a sua busca incessante por alguma coisa que os proteja, que anule os efeitos deletérios de certos fenômenos, que são absolutamente naturais, ou procurando um protetor, algo que ainda mais forte e poderoso que aquilo que os atormenta, e que, sendo amigo, lhe dará a garantia de ficar incólume: A velha história do irmão mais velho. Depois observamos os homens, agora tomados por sua peculiar empáfia, achando-se capazes de entender e explicar cada um dos fenômenos que observa, mas vendo-se incapazes de fazê-lo, pois que limitado em suas capacidades. E ainda não querem admitir tal verdade.

Aí as causas de terem criado seres criadores. Veja que a criação de criadores ocorre não por determinismo dos homens, mas por uma necessidade quase vital, poderíamos dizer. E assim é. O que conforma muitas vezes é suficiente, às vezes é complementante, noutras excludente; às vezes limitante e noutras estimulante. Mas sempre serve como solução.

E veja que aqui aquela lógica cartesiana é deixada de lado, pois se estas explicações são necessárias, porque redentoras, fogem à lógica e não poderiam ser aceitas então. Mas em sendo necessárias e até então insubstituíveis, outros sistemas lógicos são usados para justificar sua aceitação. E como manter uma unidade filosófica aceitando-se sistemas díspares? Várias soluções encontram os homens para resolver esta situação, dentre elas as soluções dos santos, as soluções das armas, as soluções das dialéticas, etc, ou, simplesmente fechar os olhos e fingir que não é com ele.

Por fim vem o homem que se intitula superior, pois agora esquece seus grandes tormentos, pois que já protegido por seu ente todo poderoso pode esquecer suas tormentas, e então observa apenas sua capacidade de destruir seus semelhantes, sendo, portanto, segundo suas lógicas ilógicas, superior a eles, e se coloca como a criatura preferida, ou até perfeita mesmo, criada à imagem e “perfeição” de um criador.

Embora sejam verdadeiros todos os fatos que descrevo aqui, não há quem esteja disposto a aceitá-los assim como os digo, com raras e honrosas exceções. Mas também isto é previsível, porque os que se ufanam são também covardes e o medo de se estar só em todo este imenso universo é muito forte. Os homens são assim. Criam seus criadores por necessidade, mas também por medo e por orgulho. Explicam-no, justificam-no, e sentem-se presentes neles, sentem-se parte integrante deles, porque os confundem com a existência, com a exuberância da natureza, da qual sim, fazem parte. O criador não é a existência, mas o existir.

- Eu não entendo bem o que você quer dizer; na verdade me parece que você quer apenas falar bonito. Mas, se não estou enganado, você disse que a vida nada mais é que um acontecimento natural, que surgiu como tudo o mais, sem que houvesse sido criada. Até aí tudo bem, mas você não explica como então tudo surgiu, como é que de repente apareceu todo este universo, sem que alguém, ou alguma coisa o tenha criado. Não é possível que tudo surja do nada. Repentinamente, sem uma causa qualquer, sem que haja um criador. Você é capaz de me explicar isto?

E enquanto perguntava dei uma espiada pela janela; chovia a cântaros, relampeava. A estrada parecia deserta, uma escuridão de fazer medo.

- Ok, vamos por partes. Estamos habituados a entender que nada surge ao acaso, que tudo tem uma causa, ou em outras palavras, que a cada ação corresponde uma reação. Antes de tudo, lembre-se que eu falei da forma do pensamento, da lógica aprendida e tida como a única verdadeira. De fato a ciência tem razão em querer entender e explicar o nosso mundo e, muitas vezes, pode estar certa naquilo que enuncia, nas leis que desenvolve, para poder explicar os fenômenos que nos cercam.

Porém estas “verdades” só são válidas em um determinado tempo e espaço dados e limitados. Tanto é assim que a evolução do conhecimento acaba por desmentir teorias que antes eram tidas como verdades absolutas, e que até podem continuar a ser verdade desde que limitadas a certas condições.

Pois bem, ainda é difícil para nós conhecermos o universo e, consequentemente, entendê-lo. Muito mais difícil ainda será concebermos suas origens. Ora, a origem de tudo que existe se confunde com a própria origem do universo, pois há de se entender que o universo é na verdade tudo o que existe. Portanto tudo, tudo mesmo, nós inclusive, somos parte integrante deste universo, e não poderemos nunca existir diversos dele. O todo é constituído de suas partes, e cada parte do todo é seu constituinte. No entanto o universo não tem e nem pode ter uma origem definida posto que é atemporal, ou seja, não existe, a nível de universo, aquilo que convencionamos chamar de tempo. Na realidade não existe também o que nós entendemos como espaço, e, se pensarmos bem, não existe mesmo nenhuma dimensão a que estamos acostumados, que não passam de meras convenções humanas.

Estas dimensões convencionadas são extremamente úteis ao homem, para que ele possa ter algo em que se basear, numa tentativa de localizar-se frente ao mundo em que se encontra. Caso não fosse assim, se sentiria completamente perdido, desorientado, como alguém que acordasse de um sono de séculos em um mundo completamente diferente daquele para o qual foi preparado. Seguindo o nosso raciocínio o universo é ilimitado, em qualquer dimensão que se possa imaginar, incluindo o tempo e o espaço, portanto não tem começo ou fim, é imensurável.

Lembra o que eu disse sobre o homem ter a necessidade de medir, de comparar, para poder conhecer, pois aí está a grande dificuldade de entender o universo, porque se imensurável, incomparável, também incompreensível. Mas com calma nós podemos se não entender este conceito pelo menos aceitá-lo, nem que seja apenas com a finalidade de mantermos a linha de raciocínio, e, assim fica relativamente fácil compreendermos que a vida surgiu em função da própria evolução do universo, como uma estrutura natural, em função de peculiaridades existentes num determinado tempo e num determinado local específico de todo este grande universo ilimitado.

E antes que você me diga que aqui exista uma incoerência, posto que primeiro neguei a existência de dimensões – tempo e espaço principalmente – depois especifiquei a origem da vida em função de peculiaridades de tempo e espaço, é preciso que entenda que embora ilimitado o universo não é estático e, embora não de acordo com nossas leis de física, ele se modifica constantemente em todas as suas partes, por ínfimas que sejam. Justamente estas modificações são a causa da nossa noção de dimensões, e utilizamos essas noções para que a explicação que tentamos seja compreensível.

Eu entendo como deva ser difícil e, acredito, até bastante cruel, a não valorização da vida como algo extraordinário, mas infelizmente assim é. E se você concorda comigo em tudo isto que acabo de falar, deve concordar também que não poderá existir vida orgânica em outros pontos do universo, pelo menos não como a organização vital que temos neste nosso planeta Terra. No entanto com certeza absoluta existem formas organizadas de energia que poderiam ser confundidas com formas de vida para alguém menos atento. Seria porem apenas uma confusão passageira, porque quando estivermos em contato com estas formas certamente criaremos um novo designativo para elas.

Mas é preciso muito cuidado com esses conceitos. A vida tem valor sim, e muito. A própria existência exige que se respeite tudo, que se dignifique tudo, que se ame tudo, porque tudo que existe é digno, pelo simples fato de existir, inclusive o ser vivo, todo e qualquer ser vivo. E então aí se inclui também o ser humano e talvez até com a justificação de uma ênfase maior, visto sermos semelhantes.

- Mas nós temos sentimento e razão. Isto não nos diferencia?

- Sentimentos e razão sim, temos. Mas são coisas que, como tudo mais, devemos analisar, e é claro que quando eu analiso alguma coisa estou utilizando a ‘razão’ e, portanto, modificando-a, em função de minha própria razão e de minhas capacidades. É o mesmo que se modificar uma partícula quando por algum instrumento eu tento observá-la: eu a estarei modificando. Mas esta razão não é nada superior a qualquer manifestação voluntária de qualquer outro ser organizado como forma de vida. Diferencia-se do instinto por ser elaborada e voluntária, mas faz parte de todo o conjunto vital, tanto quanto o instinto. A razão nada mais é que a seqüência de aprendizados ou de dados transmitidos e apreendidos quer por herança ou por aculturação e que podem ser intraespecífica ou extra específica, que utilizamos através de um sistema lógico qualquer. O instinto é utilizado para a nossa sobrevivência e é parte integrante da razão.

Já o sentimento não é algo superior, não é exclusivo dos seres humanos. Existe em todo mundo animado e, acredito, também no inanimado. É muito estranho descrever os sentimentos, mas é até fácil entendê-los. O fundamento de manter-se vivo - existir, e, reproduzir-se- fazer existir, é a própria vida – a existência – e é também o ponto chave para entendermos o sentimento. De maneira geral podemos dizer que tudo aquilo que está ligado à manutenção do indivíduo ou da sua espécie, tudo que corrobore para que se cumpra com as obrigações, para a manutenção do status dado pelo existir, é agradável, prazeroso; ao contrário, tudo que possa vir a ser nocivo ao princípio da existência será desagradável, doloroso. Aí está o que gera os sentimentos, as emoções: fosse desagradável o ato da reprodução (pode entender como sexo, não há problema algum) nenhum ser estaria disposto à reproduzir-se voluntariamente. Teria que ser compulsório, e ainda assim sob coação; embora imagine que a divisão de uma ameba, ou de uma célula qualquer, não seja nada agradável. Num exemplo invertido, ferir-se causa dor, desconforto, pois a agressão ao meu organismo pode por em risco minha sobrevivência; caso fosse prazeroso viveríamos todos retalhados. O raciocínio é simples, e, por isso mesmo verdadeiro. A somatória dos sentimentos prazerosos que vão ocorrendo durante nossa existência, sua memória, suas comparações, suas análises inconscientes, da mesma forma que com os sentimentos desagradáveis, vão constituir nossas emoções. Emoção é aprendizado, embora seja também instinto.

As emoções são também racionalizadas. Nós conseguimos de alguma forma entender um pouco do que se passa na cabeça do homem, quer por via analítica, quer por meios neuroquímicos e até explicarmos como se processa a emoção (como também a memória, a razão, os sentidos). Isso na verdade não nos interessa para o entendimento dos fundamentos das emoções, pois que apenas elucidam sua fisiologia. Portanto não seria correto basear-se na razão ou na emoção para justificar qualquer primado do ser humano, ou mesmo de outros seres viventes, pois que estes dois mecanismos nada mais são do que partes integrante do binômio existir / fazer existir, sendo desta forma comum a todos os seres.

Ainda seria interessante pensar que o ser humano aculturado não consegue agir apenas com a razão, o que poderia até ser desejável. Na maioria das vezes os humanos agem apenas com o sentimento deixando de lado a razão. E quando em suas ações utilizam alguma razão seria no máximo sessenta por cento, deixando o resto para o sentimento. E isso entre aqueles que são gênios. Se você observar o que ocorre nos lares, na política, na sociedade em geral o que acabei de dizer está plenamente justificado.

E digo ainda que acredito que isso é igual em toda forma de vida, vegetal, animal, protozoa, ou outra qualquer. Agora, será que naqueles que os homens chamam de seres minerais, ou inanimados, não existiria um pingo de razão? Será que eles não têm mesmo sentimentos?

- Ta legal, mas e o amor? É um sentimento comum? O amor não é um sentimento superior, diferente do simples instinto maternal, ou do instinto de sobrevivência?

- O amor! Não resta dúvida de que é um sentimento nobre, extremamente agradável, mas que também pode trazer sofrimento, dor. Por acaso haverá amor nas relações de produção e consumo? Haveria amor na exploração do seu semelhante para seu ganho pessoal? Será que há amor na ganância absoluta, no personalismo, no hedonismo? Há, houve ou haverá alguma forma de amor no capitalismo? E a pedofilia, o sadismo, a misoginia, o estupro, são formas de amor?

Acho que só mesmo os poetas podem descrever o amor. Mas e o ódio? Não é também um sentimento de mesma grandeza, apenas de valor invertido ao do amor? Enfim, o amor é um sentimento igual à qualquer outro, sem tirar nem por. Tem as mesmas origens e as mesmas finalidades, e, em sendo prazeroso, tem por objetivo a manutenção da existência. Obviamente que com o ódio ocorre o mesmo, só que no sentido inverso.

Quem dera fosse soberano o amor! Ou que o amor fosse realmente algo diferente, extraordinário; ou ainda que se pudesse transmitir o amor como numa epidemia, fazendo com que todos os seres se tornassem repletos de amor, para que nenhum outro sentimento encontrasse um cantinho para si. Essas são as quimeras do homem imaturo, que não suporta imaginar-se num mundo real. Mas bem: não é porque possamos entender o amor como um sentimento qualquer que iremos doravante deixar de realçá-lo, cantar sua pureza, sua beleza, praticá-lo a cada dia, a cada instante, tomá-lo como se fosse a própria essência da vida, como a convergência de todos os destinos e desejos. Ao contrário, agora sim somos capazes de fazer do amor o ápice de toda a existência, porque entendemos sua natureza e seu objetivo. Se todo sentimento bom é construtivo, se o nosso binômio (existir/fazer existir) depende de fatos positivos, se essa é a lei universal única, então o amor é seu sinônimo, sua ferramenta.

Os homens têm o terrível vício de ao entender algo passar a desvalorizá-lo, porque se perdeu então o mistério, a magia. Mas o homem verdadeiro, forte por si, não por ser qualquer super-homem, é capaz de aprender e ainda assim valorizar ainda mais o que aprendeu. Portanto é capaz de valorizar o amor e viver por ele. Nós somos a existência e o amor é o existir.

- Você coloca sentimento e razão como sendo naturais e de mesmo valor, se é que entendi bem. Mas isto não facilita a compreensão do que seriam realmente estas características humanas. Ou você está só simplificando as coisas?

- Na verdade eu não disse que sejam características humanas, mas que fazem parte de todos os seres, indistintamente. O fato de que eu simplifique as coisas não é para justificá-las, ou para justificar meus conceitos, mas simplesmente porque as coisas são realmente simples, e a simplificação de conceitos faz com que desmistifiquemos os termos, possamos tratá-los sem preconceito, sem dramas de consciência, sem a hipocrisia própria dos homens. Os verdadeiros valores são simples, destituídos de toda pompa e circunstância. No entanto é bem evidente que se necessita o uso de termos corretos, que especifiquem um conceito de forma incontestável, clara, e não tragam interpretações dúbias, para que se transmita realmente aquilo que se desejar expressar. Do contrário seria impossível qualquer diálogo coerente. Essa é uma das premissas do conhecimento dito científico; não teria havido todo o desenvolvimento científico / tecnológico se assim não fosse. Portanto se impõe o uso de termos precisos, e, se possível, concisos. Por isso a linguagem daqueles iniciados se torna complexa, hermética, às vezes enfadonha com certo ar de pedantismo.

Mas se esquecermos as palavras, os termos complexos, veremos que podemos dizer as mesmas coisas de maneira muito simples, porque todos os conceitos são simples em si, por mais amplos que sejam. Muitas vezes jogamos um sem número de locuções, frases elaboradas e quilométricas, para emitirmos um conceito que poderia ser expresso em uma ou duas palavras simples. A verborragia não é de forma alguma sinônimo de erudição e muito menos de inteligência. Inteligência é saber fazer-se entender em cada meio e poder também compreender o que se diz em cada meio. Portanto a simplificação dos conceitos facilita também a sua compreensão e é meio caminho andado para se gostar e para se respeitar o que se diz. Dissemos isso sobre os sentimentos, e sobre a razão, o que faz com que aumentemos ainda mais o respeito que temos para com estas duas entidades e falamos assim do amor, o que faz com que aumentemos ainda mais o nosso próprio amor, porque entendendo a sua simplicidade, aprendemos seu imenso valor, sendo, então muito mais capazes de amar.

“Nada é tão perfeito que não possa ter seus momentos de incoerência”.


Você gostaria de falar sobre as características humanas, mas como que sobre valorizando-as e o que eu estou tentando dizer é que não há porque sobre valorizá-las, ou seja, colocar de alguma forma o homem como sendo superior a qualquer outro ser da existência. As características peculiares aos seres humanos são simplesmente suas características, elas os distinguem de todos os outros entes, assim como as peculiaridades dos demais entes os diferenciam dos seres humanos e de todos os outros seres também.

Veja porque eu quis falar sobre a simplicidade das coisas e dos conceitos. Não há necessidade alguma de se complicar a compreensão do ser humano, pois que nós somos idênticos a qualquer outro ser, seja animado ou inanimado. Lembre-se que quando começamos nossa conversa tínhamos percebido que a única coisa que diferencia os seres vivos, ou seres animados, daqueles ditos inanimados é o modo das alterações que estes seres sofrem e lembre-se também que tomamos a noção de que o tempo que observamos é algo que só existe em nossa mente, não sendo, pois, uma entidade real, mas apenas um conceito exclusivo de nossa forma de pensar.

Ora, se assim é, não pode haver diferença entre os seres que são, cada um, uma parte do todo da existência. Portanto cada um com suas peculiaridades, com suas características próprias, que justamente os identificam, têm a mesma importância e, conseqüentemente não se justifica que tomemos os seres humanos como superiores a qualquer outro. Não vejo então importância em discutirmos as características do ser humano. Isso não nos leva a nada. Esta preocupação dos homens consigo mesmos é que os impede de ver as coisas como elas realmente são.

Mas existe uma diferença grave entre os seres humanos e os demais. É que os humanos vivem em sociedade, que diferentemente das outras, não respeita seus componentes, não valoriza nada além do poder. Nem sua própria cultura. É altamente destrutiva e autodestrutiva e é assim que ensina aos que a constituem e é assim, portanto, que os constituintes dessa sociedade agem.

Só agora me dou conta de como aquela conversa, que se iniciou de forma tão estranha, tenha decorrido assim, quase que sem mais nem menos. Eu que não era dado a esses pensamentos meio que filosóficos, meio que existenciais, estava como que fora de mim. Não eram essas as conversas que normalmente faziam parte de minha vida. Porém naquela noite eu não me dava conta do que realmente acontecia, do que falávamos. Simplesmente este diálogo vinha se desenrolando, vinha se desenvolvendo, sem que eu tivesse de qualquer forma o estimulado, ou pelo menos assim imagino. Mas como eu ali não pensava nestas coisas continuei com meus argumentos fracos e com minhas perguntas infantis, mesmo com os psius que se ouvia lá de trás. Acho que a estas alturas quase todo mundo dormia.

- Tá certo, o amor é algo simples, fácil de ser entendido. E a paixão? É a mesma coisa que o amor? E não existem tantos tipos de amor diferentes? O amor romance, carne, sexo, não é diferente do amor fraterno ou do maternal, etc?

- Bom, é claro que os conceitos são simples, mas a vivência produz efeitos múltiplos. Uma coisa é analisar, entender, estudar; outra, muito diferente é viver. O entendimento facilita o viver, mas não o impele e não impede o sentimento, embora possa modulá-lo, domesticá-lo. Os sentimentos são muitos, tanto bons quanto desagradáveis. É praticamente infinito o número de sentimentos possíveis e suas intensidades, que se inter-relacionam, se influenciam mutuamente, tornando-os desta forma muito complexos para serem entendidos, conquanto muito simples de serem vividos.. Na verdade só existe uma forma de amor, que é o amor puro, simples e bom, mas que se manifesta de formas diferentes, porque cada forma tem objetivos diferentes. Como disse antes, o sentimento também é aprendizado, e como digo agora, pode ser modulado, de tal forma que podemos senti-lo de várias maneiras diferentes, como se fosse realmente uma forma diferente de amor. O amor carnal, como você diz, tem importância fundamental; é quase como se fosse a forma basal, primária, do amor e, podemos dizer, a fonte inicial de toda forma de amor, pois o sentimento não é o aprendizado entre o que sentimos de prazeroso e doloroso? E o amor maternal, tem sua origem no amor carnal. Justamente por não querer ostentar erudição não vou citar nomes, mas há muitos anos o sábio já demonstrou isso: O sexo como a origem de todo o prazer e de todo o sofrimento humano e como fonte primária de todo o amor.

Está certo o que ele disse, faltando complementar com seu par, que é a própria sobrevivência. Assim como a paixão é apenas uma forma de manifestação do amor ou do ódio. Agora cada um sente o que sente, a seu modo, com a intensidade que quiser, ou em outras palavras, quando, como e se quiser. Vou repetir que não há como medir o sentimento de cada um e, conseqüentemente, não há como comparar sentimentos. Menos ainda determinar quando e como sentir o que se sente. Se a dor é minha, só eu posso senti-la, embora você possa condoer-se por simpatia, por solidariedade, por humanismo ou qualquer outra coisa, sem jamais sentir a minha dor, ou o meu amor.

- Fale-me então sobre o sexo.

- O sexo, origem de todo o sentimento e de todo o poder! Bem, é mais ou menos isso: O sexo é uma das duas origens dos sentimentos, mas com certeza é a fonte única do poder. Vamos por partes. Primeiro o sexo existe com a finalidade precípua e única de promover a reprodução de alguns seres vivos, de uma forma tal que além de criar um novo indivíduo o faz criando condições para que a sua espécie tenha ainda maior chance de sobrevivência. Aí está o que é em essência o sexo. Mas então vem toda a sentimentalidade e racionalidade do homem complicando um pouquinho o que em síntese é muito simples. É bastante evidente, e seria até dispensável dizê-lo, que se fosse o sexo um ato doloroso ninguém desejaria praticá-lo, ficando assim esta forma maravilhosa de reprodução sem utilidade, e nossa espécie com sérios riscos em sua sobrevivência. Portanto é bem fácil compreender o porquê deste sentimento tão intenso, o porquê desta mística, desta imensa glorificação do sexo, que, contudo, foi também modulado, domesticado pelos homens, aí com interesses mesquinhos, ligados ao poder. Quer me parecer que seja fácil entender que o poder está intimamente relacionado com a sobrevivência, pois está bem claro que tenha muito maior chance de sobreviver o indivíduo que é mais forte, ou ainda, melhor adaptado. Não é justamente por isso que se desenvolveu a forma sexuada de reprodução, para criar indivíduos com a maior variedade possível de características, de potencialidades intraespecíficas, permitindo assim uma maior capacidade de adaptação e, consequentemente, uma maior chance de sobrevida? Pois então, o mais forte será o mais capaz, será aquele com maior chance de sobreviver, será o que dominará seus pares, tendo sobre eles o que conhecemos como poder. O desejo de poder é natural, é instintivo, faz parte da sobrevivência da espécie (note bem, não do indivíduo, mas da espécie). Desta forma se modulou o sexo, se domesticou o sexo, criando-lhe normas sociais, para que não haja risco ao detentor do poder. Estou me atendo aos seres humanos, pois me parece ser este o seu interesse e, infelizmente, o ser humano, por suas próprias características biológicas que o fazem extremamente complexo em sua fisiologia, é, por isso mesmo, extremamente frágil e dependente em seus primeiros momentos de vida e mesmo no decorrer desta, necessitando um acompanhamento muito longo por parte de seus genitores, até que possa ter condições de viver sozinho. Isto criou a necessidade de manter-se um grupo unido, para manter as condições de sobrevida das crias, dando origem ao núcleo familiar. O núcleo familiar e o poder foram básicos para a sobrevivência da espécie, mas com certeza futuramente não o serão mais. A necessidade de manter-se o poder (e a riqueza é parte do poder) e a família, e mais que isso, manter o poder dentro do grupo familiar é que gerou a necessidade de se regularizar e de se codificar o sexo. Até a monogamia tem aí sua origem. Note que a monogamia na natureza só é necessária, com relação ao ser humano, para a fêmea, e assim mesmo, por certo período. Isto é comprovado pelo fato de que o homem poderá gerar infinitas crias em sua existência, enquanto que a mulher está limitada no número de filhos que poderá gerar, e mesmo assim, apenas um ou alguns poucos de cada vez. A força motriz de nossos atos, de nossos desejos, não foge ao binômio existir / fazer existir, portanto a força motriz que nos impulsiona em tudo que fazemos é a nossa sobrevivência e da nossa espécie.

Mas é importante saber diferenciar o poder que se deseja para a sobrevivência da espécie e até mesmo do grupo familiar ou tribal, daquele que se deseja para ganho pessoal, ganho econômico/ financeiro ou satisfação de desejos desviados da natureza, ou seja, civilizatórios. O poder com finalidades desnaturadas é extremamente maléfico; gera dor e sofrimento tanto para os que o detêm como para os que são suas vítimas. E, como não há justiça no mundo, não costuma haver escapatórias ou defesas contra o poder maléfico.

- Me parece que você confunde um pouco as coisas. Você confunde o sexo biológico com os sentimentos ligados ao sexo, confunde amor carnal com amor espiritual. Na verdade acho que você nem acredita que possa haver algo espiritual, uma vez que não acredita nem mesmo num criador.

- O problema é justamente este: acreditar ou não acreditar. Quando não se tem argumentos lançamos mão da fé, porque a fé não exige explicação, não exige qualquer raciocínio lógico, dispensa-o e até inibe-o. Não importa muito no que acreditamos, não importa mesmo se acreditamos ou não em alguma coisa, o que realmente importa é se estamos dispostos a pensar um pouco, a analisar algumas das coisas que nos perturbam e que nos acompanham ao longo de toda nossa longa jornada neste planeta. Pode ser que minhas idéias sejam a princípio um pouco difíceis de serem entendidas e, acredito, muitas vezes não são aceitas, mas não serão tão confusas como você tem dito. Não há como negar o nexo lógico do desencadeamento dos fatos que nos rodeiam e que fazem parte de nossa existência, assim como não há como negar que nós fazemos parte de um todo, uma existência, infinitamente maior que nós mesmos, que nossa parca existência. Não há como querer justificar nossas limitações através de teorias mirabolantes, que tendem a fugir do problema em si, apenas para satisfazer uma necessidade de sentir algo mais sólido em que possamos nos apoiar, para de alguma forma apaziguar o medo que temos da própria existência. A negativa da ordenação universal é algo impossível para qualquer um que tenha a mínima consciência de existir, e a ordenação universal não depende de nossas vontades e de nossas necessidades, mas é dada tal como é, tal como pode ser observada por alguém que é realmente limitado em suas capacidades, embora tenha atingido uma consciência de existir, mas que ainda assim só existe em função de sua própria consciência. Ninguém veio ainda nos dizer que nós existimos, tal como imaginamos que seja a nossa existência, ou ninguém veio ainda confirmar que o que observamos em nosso universo seja realmente aquilo que imaginamos, ou afirmamos ser. E, ainda, ninguém veio nos dizer se somos mesmo inteligentes como nós mesmos nos julgamos. Por isso é que posso dizer que nossos limites nos levaram e nos levam a procurar, sempre, o caminho apenas do equilíbrio, para que possamos suportar nossas dificuldades e nossas limitações, sem nos importar se o que se faz ou que se diz para atingir este equilíbrio seja verdadeiro ou não. Isso nos provoca ainda mais temeridades e ainda mais dificuldades, gerando uma verdadeira roda viva, donde nos é quase impossível sair.

O caminho do meio praticamente não existe, porque não existe o meio da existência. Não existe o fim e o recomeço, porque a existência não tem começo ou fim. No fundo, no fundo, o que existe é a justificação, a abstração, que são meras tentativas de se obter uma mínima condição de se superar as vicissitudes da existência. A mim não interessam sofismas, idéias vagas que possam me satisfazer, ou que possam acalmar meus ímpetos, ou aplacar a minha ira, ou analgesiar a minha dor. A mim interessam as verdades e as verdades se resumem a uma verdade só. Não poderia sequer dizer existir mais que uma verdade, pois seria um paradoxo: uma anularia a outra, e não poderá alguém viver aquém da verdade sem viver dentro de uma angustia sem fim.

- Oh Deus, quem entende isso? Agora você fala em verdades, e diz que só existe uma verdade. Com quem então está esta verdade, com você?

- Não, a verdade não está comigo, não está com ninguém, mas está em todos nós, faz parte de nós, e nós estamos com ela e fazemos parte dela. Assim como no caso do amor, a verdade é uma só, mas pode nos aparecer de formas distintas, dependendo do seu objeto e de cada momento. De fato, cada vez que nós analisamos algo isoladamente pode surgir daí causalidades e conseqüências diversas de outros fatos também analisados isoladamente e, conseqüentemente podem surgir verdades diferentes, inerentes a cada coisa analisadas de per si. Por isso é que você diz que sou confusa: Porque você analisa as coisas isoladamente, cada uma em seu momento. E é assim mesmo que as coisas são analisadas, pois o próprio termo assim definiu. Mas que tal se ao analisarmos um fato qualquer nós não tenhamos que perder de vista o todo do qual faz parte também aquele fato isolado? Que tal se tentarmos manter ao alcance de nosso pensamento aquilo que já pensamos antes? E, ainda mais, que tal se ao efetuarmos uma análise, por mais simples que seja, nós procurássemos extrapolar esta análise, estendendo-a infinitamente no tempo e no espaço? Tente, tente sempre que se lembrar, de fazer deste modo.

O melhor é que iniciemos com coisas comuns, com acontecimentos do dia a dia, fazendo exercícios mentais, para nos acostumarmos com essas idéias. Todos os que procederem assim em suas análises, ou mesmo em suas vidas diárias, chegarão sempre ao mesmo ponto, e ali estará a verdade e será então a mesma para todos os fatos e para todas as pessoas. Dadas as mesmas premissas e utilizados os mesmos sistemas lógicos para uma avaliação, a conclusão terá que ser a mesma para qualquer um. 

A meditação é apenas a busca incessante desta verdade, mas de forma errada, porque ela não está apenas dentro de nós, mas ela está ao nosso redor. O estudo, a busca da verdade em antigos alfarrábios também estará fadada ao insucesso. O conhecimento profundo dos sábios e dos profetas não levará ninguém a encontrar a verdade, porque ela não está em suas loucas palavras. A filosofia tão pouco poderá nos solucionar esta busca vertiginosa, porque a filosofia não é a verdade. A ciência poderá nos mostrar novos caminhos e nos fará entender algumas das mecânicas universais, mas não nos mostrará a verdade, porque não a domina e não a conhece. A religião tentará nos induzir a acreditar em alguma verdade, que quase se confunde em todas as religiões, mas estará afastada da verdade, porque acreditou em verdades enunciadas e se baseia apenas em crenças. Cada um de nós terá que encontrar a verdade por si mesmo, porque ela não nos é mostrada, não nos é ensinada, não nos é transmitida, nem nos nossos sonhos, nem por almas penadas, nem por sábios ou por santos, nem por deuses ou astronautas. A verdade não se esconde, não se furta à nossa presença, não admite disfarces nem camuflagens. Também não se impõe, não se ufana, não ostenta galardões. Por outro lado também não se exime, mas não tergiversa. A verdade é simplesmente a verdade; a verdade somos nós, é a própria existência.

- Puxa esta resposta foi interessante, mas para mim continua ainda um pouco confusa. Você é sábia? Onde você aprendeu todas essas coisas que me diz?

- Não, por favor, eu não sou sábia, sou apenas alguém que gosta de conversar. O que seria na verdade um sábio? Acho que não existem sábios, assim como não existem bruxos. Onde se pode aprender as coisas? Ora as ‘coisas’ estão aí, ao nosso redor, basta abrirmos os olhos, os ouvidos, basta que apanhemos algo em nossas mãos, basta que nos preocupemos em senti-las, porque elas são parte de nós. E porque haveríamos de ser diferentes de tudo mais? Tudo que digo faz parte deste todo maravilhoso, que somos nós todos, nós mesmos, carne e osso. Tudo está ao nosso alcance, e o que não alcançamos com a vista podemos alcançar com a mente. Os pensamentos, não estão presos a noções de dimensões, são livres, eternamente, infinitamente livres. Não há porque limitar ou censurar nossa mente, não há como prender, restringir nosso pensamento, que pode viajar a todos os lugares e a todos os tempos, bastando para isso o nosso simples desejo.

E a única forma de nossa vontade ser soberana e completamente capaz, totipotenciária, é através do pensamento. Portanto todos nós somos livres para aprender o que quisermos, porque tudo está ao nosso redor, tudo está ao nosso alcance, e somos livres para pensar e para imaginar. Não há governo ou força policial que possa censurar nosso pensamento, pelo menos até que nos instalem chips ou outros meios de leitura e controle da nossa mente. Não há outra forma de aprender a não ser a forma da vontade. Não há lugar ou tempo específico para se aprender; aprendemos a todo tempo e em todo o lugar, constantemente, continuamente, indefinidamente. E a ninguém é dado ensinar, porque ninguém ensina nada que não queiramos aprender. Mas, por outro lado, nós aprendemos tudo aquilo que quisermos, ainda que não existam mestres. Portanto onde ou como aprendi algo, visto que nada sei, que mera aprendiz, procuro, busco sempre, a cada momento, aprender, entender, um pouco que seja, sobre o muito pouco que me é dado pensar.

Mas talvez você possa se perguntar, mais uma vez, se a ti interessa aprender algo. Talvez você possa se perguntar se ao homem interessa aprender algo. Talvez haja algo de bom em se aprender, em se procurar entender um pouco que seja sobre justamente o que nos perturba, sobre o que nos angustia. A mim basta que siga meu caminho e que este caminho seja leve, porque trilhado com amor; mas que este caminho seja ancho de tudo que possa me rodear, para que possa aprendê-lo, e em aprendendo-o, aprender também tudo que o rodeia.

- Porque você diz que a religião está afastada da verdade? Eu não entendi bem; O que é este negócio de verdade enunciada?

- Bom vamos partir do fato de que existem inúmeras religiões, cada uma delas procurando impor aquilo que entende ser a sua verdade. Muitas vezes aquilo que prega uma religião é exatamente o que prega uma outra, porém usando de termos um pouco diferentes, ou baseando-se em profetas, emissários, deuses ou qualquer coisa semelhante, com nomes diferentes mas que muito pouco diferenciam-se entre si. Na verdade todas as religiões pregam as mesmas coisas, todas buscam a salvação do homem. Salvação! Que salvação? Porque o homem tem que ser salvo? Salvo de que? Salvo de si mesmo, salvo do que ele mesmo denominou pecado original, ou algo que o valha, que nada mais é do que a própria angustia existencial, a sensação de que se vive sem que para tal tenha feito algo que o tornasse merecedor, como se estivesse usurpando algo, como se sua existência não lhe pertencesse? Ou salvo do fim de sua própria existência individual, da sua morte? Este sentimento original em todos os homens, esta incapacidade de se explicar a sua própria existência, este medo de existir, de estar só frente ao imenso universo cria o misticismo natural do homem, o que leva a criar deuses todo poderosos, seus senhores e seus criadores, a quem rendem cultos, pois não há outras formas de aproximarem-se de entidades tão poderosas, e criam-se religiões. E as religiões criam dogmas, criam leis, criam falsas verdades que procuram justificar a existência do homem e assim resolver suas angústias, criando um pecado original, que resume sua angustia, e, em seguida criando o mecanismo para expurgar este pecado original, para que os homens agora possam viver em paz consigo mesmos, livre de suas pretensas culpas de existir, tendo sua existência ‘perfeitamente explicada e justificada’. Por isso a religião não tem consigo a verdade, porque sua função é apenas a de criar uma condição para o homem viver em paz consigo mesmo, e toda esta roda viva de medo, angustia existencial, misticismo, deuses e religião, cria, como dito acima, seus dogmas, suas leis, seus ritos, e nesse caminho surgem as pseudo verdades, que são impostas, enunciadas por ‘alguém’ que teria este poder e, evidentemente, que com o uso contínuo por séculos e séculos, fará desta ‘verdade’ algo incontestável.

Mas as religiões têm muito valor para a humanidade, e para cada indivíduo, ainda que não fosse, por qualquer outro motivo, pelo simples fato de que os seres humanos são místicos, porque assim mitigam seu sofrimento existencial natural. Nas igrejas que se baseiam na bíblia existe uma lenda sobre a criação do homem que não deixa de ser verdadeira, aquela que diz que o homem foi feito de barro. Na verdade foi mesmo, foi feito pela terra que o abriga, pela miscelânea que compõe a própria terra. Não existe verdade mais absoluta do que esta. E, seguindo o mesmo ensinamento verdadeiro, o homem retornará ao pó, sim senhor, com certeza absoluta o homem voltará a ser pó, a ser terra, pelo menos enquanto habitar a terra. Tudo volta a sua origem, pois que em sendo tudo infinito, não haverá começo ou fim. Em outras palavras o começo e o fim serão a mesma e única coisa, segundo outra verdade mística: eu sou o princípio e o fim. Por tudo isso é que te disse no começo que a ninguém e dado viver impunemente, espero que possa ter entendido agora. A carga de se suportar todo o universo em si, de ser o próprio universo é imensa e quase insuportável para nós seres humanos.

Então as igrejas têm, sim, grande importância para os seres humanos e sua sociedade.

Mas ao mesmo tempo são utilizadas, senão criadas, para a dominação das pessoas por outros que detêm mais poder. A religião é uma ferramenta de dominação, mais barata e talvez mais eficaz que a força bruta, assim como o celular e as redes de internet se tornaram hoje ainda mais baratas e mais eficazes que a religião.

- Bom, então me diga por que a ciência também não possui a verdade?

- A ciência é mais ou menos como a religião, baseia-se em princípios falsos. Para começo de conversa a ciência necessita de mensurações para seus estudos; o pensamento matemático, que é uma das bases sobre que se assenta a ciência nada mais é que um conjunto de regras abstratas que tratam das mensurações e de suas relações. Por outro lado a ciência se baseia no tempo: tente retirar o tempo dos enunciados científicos e eles simplesmente deixam de existir. Ora, nós já dissemos, e, acho que você concorda, que o tempo, como entidade real, não existe. Bastariam estes dois exemplos para se comprovar que a ciência não pode conhecer ou dominar a verdade. Alguns cientistas podem conhecer a verdade, porque o conhecimento da verdade não é limitado e nem cerceado a quem quer que seja, inclusive aos cientistas. E acredito que possam existir esses cientistas. Mas a conhecem, se a conhecem, não por mérito dos seus conhecimentos científicos, ou por se utilizarem destes conhecimentos, ou de conhecimentos matemáticos, mas porque o conseguiram com seus méritos próprios, independentes, pois é só assim que se chega à verdade, só assim se pode reconhecê-la. Não há um método, um sistema, um meio qualquer de se chegar a vislumbrar a verdade; é um caminho que cada um traça por si, que só existe quando você o percorre e é exclusivamente seu.

A ciência tem seus iniciados e seus segredos, têm seus grupos e seus termos, tem seus dogmas e suas leis. Ao contrário, a verdade não tem donos, não tem leis, não exige termos específicos, não está restrita aos iniciados. No entanto a ciência como todas as atividades humanas tem imenso valor. A ciência desenvolve um método, propõe normas específicas para reconhecer a ‘veracidade’ de um enunciado qualquer, e isso é muito importante, ensina alguns a pensar; congrega séculos de estudos e conhecimentos, transmitindo-os, ao menos em parte, a muitos; propicia a explicação, ao menos parcial, de alguns fenômenos que nos rodeiam. Mas, dentre as causa e finalidades da existência da ciência, e que são da maior importância, é que a ciência, uma atividade natural, faz parte de todo aquele conjunto de atividades presos à dualidade de existir e fazer existir, que em suma servem para a manutenção do homem como espécie. Em outras palavras a finalidade da ciência é tornar o homem independente de seu berço materno, a terra. Enquanto o homem estiver preso a este planeta sua sobrevivência estará limitada às condições que este planeta lhe oferecer e, portanto, ameaçada.

O conhecimento científico se propõe a três objetivos básicos: o primeiro procura encontrar meios que permitam ao homem sobreviver nesta terra, enquanto não obtém os meios de se livrar dela e, ao mesmo tempo, dar condições de sobrevivência em outra estrutura planetária (ou assemelhado) do universo aonde um dia venhamos a viver; o segundo visa obter os meios que possibilitem ao homem fugir deste planeta mãe, viajando no tempo ou no espaço, ou ainda em dimensões por nós ainda não imaginadas. Claro também que nessa aventura de se expandir a vida terrena para outros cantos do universo, o homem, ou a vida biológica, pode se substituído por uma vida mineral e isso parece ser o mais provável de ocorrer. O terceiro seria a necessidade de se conhecer o que nos cerca, de conhecermos um pouco sobre nós mesmos e assim mitigar nossos sofrimentos básicos. Então se poderia até se confundir esse objetivo com a religião, rá,rá,rá.

Nada existe por acaso, nem mesmo o conhecimento, seja ele qual for, e nada está fora da natureza posto que nada está fora do universo. Mas mesmo o que por ventura seja muito limitado, como o conhecimento humano em toda a sua gama de diferenciações, tem infinito valor, pois tem as mesmas dimensões de todo o universo.

Contudo a ciência tem a vantagem de não impor verdades, de não se julgar dona ou conhecedora da verdade. A ciência verdadeira enuncia uma explicação para algum fenômeno que acredita ser correto, apenas até que se prove algo diferente e que pode vir a ser ainda mais correto.

- Agora eu me confundi um pouco. Você realmente acha que a finalidade do conhecimento humano é encontrar um meio de viver fora da terra? E o conhecimento filosófico? E o conhecimento daqueles que não conhecem a ciência ou a filosofia, mas que têm um conhecimento, como diria, natural, herdado de seus antepassados? Você nunca pensou que o que o homem busca é o conhecimento de si mesmo e de suas origens?

- Bom, em outras palavras é exatamente isto que eu estou dizendo todo este tempo. É evidente que o homem busca conhecer a si mesmo, e ao seu meio, busca conhecer suas origens, como fosse um filho adotivo, pois é assim que ele se sente e, cedo ou tarde, ele chegará a este conhecimento, pois ali estará então a tão falada verdade que buscamos, e que eu tento de algum modo explicar a você. Em verdade todo o conhecimento humano é um só, inclusive o que nos é instintivo, mas é segmentado em áreas de interesse, cuja divisão é meramente didática, assim como se dividem as matérias em cursos regulares em qualquer escola de qualquer parte. Mas alguns anos após abandonarmos os bancos escolares, ou mesmo antes, fatalmente chegaremos à conclusão de que todo aquele conhecimento transmitido faz parte de um todo.

O conhecimento empírico nada mais é que o início de todo conhecimento filosófico ou científico. O conhecimento básico, advindo da simples observação das modificações que ocorrem em nosso ambiente perceptível, e que transmitimos por herança cultural, através da tradição, das lendas, do folclore, das artes, da educação familiar, ou de qualquer maneira que seja, é a base de tudo. É interessante que os homens esqueçam determinados valores ou conhecimentos prévios, que são de inestimável valor e, ao mesmo tempo, exaltem outros valores e conhecimentos tão importantes quanto ou, pior, valorizam conhecimentos absolutamente desprezíveis. A sistematização do conhecimento traz inúmeras vantagens, mas não é completa, traz em si muitos erros. Se não houvesse esta eleição e hierarquização de conhecimentos a evolução do pensamento humano estaria muito à frente. Enfim, todo o conhecimento humano visa sim libertá-lo deste planeta-prisão, mas não apenas por poder proporciona-lhe férias diferentes, em outro planeta, mas como a maneira de poder manter sua sobrevivência.

Está bem claro hoje que os recursos da terra não serão, um dia, suficientes para a manutenção da vida biológica. Então para nossa organização vital possa persistir seria necessário povoarmos outros planetas, outros sistemas solares. Ou colonizamos outros sistemas com organização vital biológica ou, o que é mais provável, o faremos com a vida mineral, que nada mais é que a máquina movida pela inteligência dita artificial. E não é só o homem que busca esta finalidade, todo o ecossistema do planeta conjura para este fim.

Por outro lado o homem, e tudo o que o rodeia, seja biológico ou não, é eterno, porque tudo é eterno. A vida eterna existe realmente, não é um sonho ou uma meta religiosa, nem tão pouco um prêmio por bom comportamento, mas é uma realidade existente no aqui e agora e, evidentemente, para todo o sempre. Veja quantas vezes nos encontramos com seres que ‘viveram’ a centenas, milhares de anos, ou que virão a ‘viver’ daqui a centenas, milhares de anos? Na verdade eles não existiram ou existirão, mas eles existem, assim como nós. Vou voltar a repetir que tudo é eterno, que não existe começo ou fim, tudo faz parte do mesmo universo, que não tem dimensão, não tem limites, é infinito. Veja como as coisas são interessantes: ao mesmo tempo as coisas transcorrem e estão indefinidamente no universo, como que estáticas.

Meu Deus, pensei por um momento. Essa menina parece louca; fala coisas desconexas, sem pé nem cabeça, e no entanto me cativa, me prende, e eu continuava perguntando.

- Você me confunde cada vez mais. Então você se esquece da morte, se esquece de que todos nós um dia morreremos? E a dor que morte causa?

- Você quer dizer morte biológica não é mesmo? Mas você também se esquece de que a organização vital não é um indivíduo, ou uma dúzia de indivíduos. O que importa é o todo, porque cada uma das partes que compõe o todo se une ao seu semelhante para formar o todo e desta forma, o que importa é a vida, e não cada um dos elementos que compõe o todo vital. Mas antes que você diga que o todo não existiria sem cada de suas humildes partes lhe direi que o todo e cada uma de suas partes são uma e uma única coisa. A morte é temporal (olha o tempo aí outra vez) e como tal só existe nesta dimensão, mas cada um dos momentos vividos por qualquer entidade é eterno, se perpetua para todo o sempre; cada instante é infinito.

Portanto o que existe na verdade existiu e existirá eternamente, sem qualquer modificação em seu estado. Cada sub-partícula, cada fóton, cada elétron e, portanto, cada ser, tem existência eterna, infinita, em cada um de seus momentos. A morte nos aterroriza porque nós não a conhecemos, não conseguimos evita-la, não poderemos repetir essa experiência pessoalmente e, portanto, a julgamos definitiva e porque, por outro lado, somos limitados em conhecer e vivenciar outras dimensões de tempo e espaço.

Existem, no entanto, certas pessoas que têm a capacidade de conectar-se com outras dimensões de tempo e espaço, ou melhor dizendo, todos nós temos esta capacidade, só que em alguns ela se manifesta mais claramente, a tal ponto que eles conseguem sentir que estão em contato com seres em outras dimensões. Só que eles mesmos não sabem identificar este fenômeno e muito menos explicá-lo. E a ciência em suas múltiplas tentativas ainda não se convenceu deste fato, mesmo porque não conseguiu ainda explicá-lo. Nós não conseguimos ainda conhecer e utilizar todas as nossas capacidades.

Assim, já que cada instante é infinito, já que cada indivíduo é eterno, a morte não existe. O que existe é o fim de um indivíduo que faz parte de uma organização biológica, num determinado momento do nosso conceito temporal, porque assim é a organização biológica, e o fim daquele indivíduo faz parte da manutenção deste organismo biológico, sendo, portanto, fundamental o seu fim para a manutenção desta própria organização. Por isso é que a ‘morte’ é parte da vida, tão bela quanto ela, tão importante quanto ela. Ah, mas a morte traz sofrimento, dor, traz um sentimento ruim e, portanto, não pode ser boa, você diria, e eu te daria certa razão, porque assim é para nós que convivíamos com aquele ente e que gostávamos dele e infelizmente não entendemos este fenômeno e muito menos ainda, não temos a capacidade de continuar convivendo com ele no infinito. Mas posso te assegurar que você continua convivendo continuamente com todos os que você convive, conviveu ou conviverá, e se quiser poderá ter estas convivências em sua mente, senti-las, alegrar-se com elas. A morte é um dos mistérios que já foram explicados por muitos sábios, tentando aliviar esta dor a que você se referia, mas que jamais foi entendida pelos homens, embora possa ter sido aceita. Nem mesmo as religiões conseguiram aplacar este receio e esta dor nos homens.

O que quero dizer é que não existe passado presente e futuro, já que o tempo não existe de per si. Se o tempo é criado a todo instante, sempre que ocorre uma interação ou uma singularidade qualquer, então não pode haver passado ou futuro. Tudo há ao mesmo tempo, tudo é o todo.

- Legal, mas eu não consigo entrar em contato com pessoas de quem eu gostava e que não vivem mais, quer você queira ou não, e se você me diz que eu estou convivendo com elas, eu não sinto isto, eu não tenho nem mesmo a consciência desta convivência.

- Evidente que não, porque você só está consciente deste momento que você vive, o aqui e agora. Mas você está limitado a esta consciência porque assim você quer, ou quis, ou ainda porque não conhece outras opções, outros caminhos. Nós nos acostumamos àquilo que nos foi dado, que nos foi ensinado como sendo verdadeiro, ou único, e nós nos damos por satisfeitos porque isto torna a vida mais fácil, nos é suficiente para viver.

A própria ciência se satisfaz com o que lhe é dado como certo, com o que foi convencionado como sendo certo. Este certo, no entanto, é extremamente limitante, não permite que se explore outros caminhos, que se estude aquilo que oficialmente a ciência não reconhece. O mesmo se passa com a religião e com qualquer outra forma de conhecimento humano.

Imagine, pelo menos por essa vez, que todos os caminhos possíveis estivessem livres para que os trilhássemos! Com certeza encontraríamos maravilhas, com as quais jamais havíamos sequer sonhado. As potencialidades do homem não são sequer imaginadas; na verdade as potencialidades de tudo que conhecemos nós ainda não conseguimos sequer imaginar. Mesmo as coisas mais simples que nos rodeiam têm um potencial de criação que extrapolam tudo aquilo que conhecemos. Na verdade nós não conhecemos nada, não conhecemos o que nos cerca ou o que nos compõe, não conhecemos sequer o átomo ou suas partículas, embora consigamos manipulá-los.

Mas veja que existem pessoas que não se comportam sempre assim. Há um sem número de pessoas que se dispõem a tentar outros caminhos de desenvolvimento, de pensamento, de pesquisa; ter a mente aberta é isso, não estar preso a fórmulas, a métodos impostos, a lógicas descritas e anunciadas como únicas. Nem tudo que nós observamos podemos explicar imediatamente dentro de nossa limitada ciência e, talvez, possamos vir a explicar um dia utilizando-nos dos nossos métodos ‘oficiais’, mas talvez tenhamos que encontrar outros métodos, outra lógicas, outras ciências para explicar.

Assim é que você, e a maioria de nós, não consegue sentir, ou conscientizar-se conforme você diz daquilo que foge ao nosso aprendizado básico, pois temos preconceitos, temos limitações impostas e pouca vontade de nos libertar delas, temos medo. Veja como o homem, a humanidade, se prende a este terrível sentimento que é o medo. Poucos estão dispostos à aventura, à aventura real de desvendar novos mundos, de percorrer novos caminhos, talvez escuros e talvez cheios de armadilhas. Todos nos sentimos bem quando trilhamos um caminho já sobejamente conhecido. Mas espere um pouco; e os primeiros que o trilharam, os primeiros que abriram uma picada, enfrentando a escuridão e os perigos? Você não acha que nós deveríamos nos lembrar deles e, se o fizermos, não deveríamos homenageá-los e, em o fazendo, não deveríamos seguir seu exemplo?

Mas nem todos são iguais, nem todos têm os mesmos dons, as mesmas capacidades, você me diria. Concordo e se você argumentasse assim, você já teria então respondido a si mesmo, pois nem a todos será dado viver em todo o esplendor do universo atemporal e tão pouco poderão senti-lo.

- Então existem pessoas que convivem, vamos dizer assim, com pessoas que já morreram, ou que já não estão mais entre nós?

- É verdade, existem estas pessoas, embora elas não tenham a consciência disto. Veja bem como é difícil para nós explicarmos certos fenômenos que observamos, ou que acontecem conosco; é muito fácil observar um fenômeno, é talvez tão fácil senti-lo, mas é extremamente difícil explicá-lo.

Muitas pessoas conseguem manter contato com outras pessoas que já não estão entre nós, e tomam isto como sendo uma sensibilidade anormal, ou diferente das sensibilidades normais de todos nós, mas esta capacidade não tem nada de anormal, faz parte daquilo que você quis dizer serem as características do ser humano. Na verdade todos os seres, humanos ou não, têm essa capacidade, pois que ela é natural em nós. O que acontece é que não estamos atentos a essa capacidade e não a entendemos.

Quando uma pessoa entra em contato com seres que já não vivem sua vida conhecida ou com seres que sequer conheceu está apenas se sintonizando com outras dimensões, que nos é difícil conceituar. Desta forma poderá esta pessoa ter contato com seres que estão, digamos assim, viajando no tempo. Claro que a viagem no tempo é absolutamente impossível, visto o que já dissemos sobre o tempo, mas é como se muitos a estivessem fazendo em todos os momentos, justamente porque o tempo não existe por si. Ocasionalmente todos nós temos contato com esses viajantes no tempo, só que não sabemos conscientemente, embora quem sabe alguns o possam saber. Ou então nós conseguimos de uma forma ou outra manter contato, consciente ou não, com outros momentos, com outros tempos e com as pessoas que estão vivendo aquele tempo. O próprio sonho muitas vezes nos libera de nossa noção de tempo, de nosso aprendizado, e nos permite estas viagens, nos permite viver em outros momentos. Algumas pessoas conseguem voluntariamente, através de outros aprendizados, através de esforço pessoal, encontrar o caminho para estas aventuras.

Mas isto não tem nada de místico, não tem nada de extraordinário, não tem nada de dom específico. Na verdade não se deveria fazer destas capacidades qualquer uso que não fosse para o desenvolvimento da humanidade. Isto não pode vir a constituir mais uma religião, mais uma crendice. Por isso insisto tanto em que o conhecimento real é fundamental para que possamos nos livrar destas aberrações de misticismo ou religiões.

O conhecimento na verdade só pode nos fazer viver mais a realidade, aproveitar mais nossas potencialidades, reconhecer cada vez mais o valor de nossos sentimentos, e desta forma viver melhor e com mais amor.

- O homem tem então a capacidade de mudar as coisas, de viver em outros mundos como você diz?

- Não, espera aí! Agora é você quem está confundindo as coisas. O homem pode sim viver em outros mundos, seja lá como você possa entender isso, esse negócio de outros mundos. Pode sim, mesmo que dentro da linearidade de seus conhecimentos atuais, pois que logo estarão vivendo em outros planetas e outras galáxias. Agora mudar as coisas é algo que devamos analisar com muito cuidado.

Primeiro precisamos entender a que coisas você se refere. Se essas coisas se limitam ao cotidiano da vida comum ele poderá modificar muitas coisas, tais como transformar uma frutinha vermelha num delicioso e aromático cafezinho, ou modificar o ferro em aço de alta densidade, ou ainda utilizar a energia cinética da água para gerar, transmitir e utilizá-la como energia elétrica em seu chuveiro. "Ou o homem pode modificar seu pensar, pensar diferente dos outros, sem medo, porque pior seria descobrir que todos os outros estão errados" (Eça de Queiroz). Porém se as ‘coisas’ em que você pensa são um pouco mais amplas o homem não terá muita chance de modificá-la.

Veja, não existe destino tal como o imaginamos, tampouco existem coincidências na criação ou no desenvolvimento do que quer que seja, mas existem a forma e a essência de todas as partes do todo, porque assim elas se desenvolveram, em função de constituir o que são. Não há um determinismo de que as ‘coisas’ tenham que ser como são, mas existe a necessidade de que elas sejam assim, pois assim é a existência. Portanto não é dado ao homem mudar qualquer átomo do todo se não for necessário que ele assim aja.

Lembre-se sempre do binômio de que falamos algum tempo atrás; lembre-se também da dicotomia do universo; lembre-se por fim das limitações do homem. Nem na sua história o homem é capaz de interferir para modificar sua evolução, não voluntariamente. O homem só é grande e potente para si mesmo, pois foi o próprio homem que se julgou e se qualificou. Haveríamos que aguardar o julgamento da humanidade por algumas outras espécies para verificarmos se seriam coincidentes os conceitos.

- Mas se o homem não faz sua história quem a faria então? E os grandes homens do passado que lutaram, descobriram ou criaram algo que acabou modificando a própria humanidade? Como é que fica então?

- O homem não faz sua história, mas é seu ator principal; vive-a mas não a faz. O homem luta, cria ou descobre qualquer coisa, pela sua sobrevivência, não como indivíduo, mas como forma biológica, como ser social, grupal. Por isso a história é da humanidade, porque a sobrevivência que interessa é a da humanidade como forma biológica. Poderíamos dizer até que não importa qual forma biológica sobreviva, se o homem, a minhoca ou as baratas, desde que sobreviva pelo menos uma.

Assim os grandes vultos da história nada mais fizeram que aquilo que à humanidade interessava, independente de suas vontades, conhecimentos ou crenças. A cada momento a humanidade precisa solucionar suas dificuldades de sobrevivência, e percorre os caminhos, que se lhe oferece, corretos ou não, porque assim tem que ser. Se liderados por Aníbal, por César ou por Sócrates não importa. E, se não fossem estes seriam outros, com outros nomes, com outros modos, mas com os mesmos resultados.

É evidente que a existência de um indivíduo qualquer não modifica a história da humanidade, muito menos seu desaparecimento. Todos que fazem parte da história fizeram algo que teria que ser feito e que teria sido feito de qualquer maneira; inclusive os vilões da história são necessários, pois é como numa peça de teatro, onde todos os personagens são importantes, nem que seja apenas como escada, pois que a deixa errada deixaria perdido o astro principal, ou tornaria a peça uma comédia esdrúxula. Mas a história não é uma peça de teatro, e por isso o ator não tem como impor suas características pessoais ao personagem. Ele é o personagem, mas não escreve o script.

Tente imaginar o mundo sem um Maomé, sem um Descartes, sem um Napoleão, sem um Hitler. Será que estaríamos hoje numa situação completamente diferente? E se não tivesse existido um Bethoven, ou um Picasso, ou um Camões será que estaríamos escrevendo de maneira diferente, ou será que não haveria a televisão? Se não tivesse havido um Chaplin não haveria vídeo cassete; e se não tivesse existido um Colombo não haveria conseqüentemente a América e por isso não haveria condições para a existência do avião, e conseqüentemente não poderia haver guerra e não seria inventado a propulsão à jato e muito menos o anestésico? Se não tivesse nascido um Einstein não poderia ter tido fim a Segunda Guerra Mundial e não conheceríamos as noções de mecânica Quântica?

Ora, quanta besteira. É lógico que estamos vivendo nosso momento nestas nossas dimensões, e viveríamos de qualquer jeito, com qualquer um, chamado João ou José. È lógico que o caminho é da humanidade, mas é ainda mais do todo, porque somos apenas parte deste todo.

Desculpe-me à empolgação, mas às vezes acontece; às vezes me entusiasmo e acabo falando demais, até me perco um pouco. Contudo, se for necessário você me cutuca e eu tento corrigir.

- Parece que começo a entender o que você quer dizer. Até concordo um pouco com isto que você acabou de dizer. Mas eu fico pensando, se é assim, se as coisas, a vida, ocorrem de acordo com os métodos da existência, porque há guerra, porque há tanto sofrimento? E mais, tudo já está determinado, é isso?

- O sofrimento faz parte. Lembra que já dissemos que ninguém vive impunemente? É preciso que a vida sobreviva em nosso planeta, até que tenha condições de liberta-se dele. O problema é que para sobreviver muitas vezes há sofrimento, devido às múltiplas circunstâncias que envolvem a vida. É necessário que a vida sobreviva na Terra utilizando-se dos recursos que a Terra põe a sua disposição. Estes recursos são limitados de alguma forma em cada um dos momentos que esta vida vem atravessando neste planeta. Por isso nem sempre podemos viver com fartura e em pleno gozo da felicidade.

A natureza limita o desenvolvimento de cada espécie às condições que existem. Os dinossauros, e os animais de grande porte, desapareceram e desaparecerão porque é muito dispendioso sustentá-los. A humanidade tem maiores chances de sucesso porque tem mais capacidade de adaptação e desenvolveu mais rapidamente suas técnicas. Mas seres simples têm a imensa vantagem de serem simples. Provavelmente os primeiros colonizadores espaciais da vida biológica serão algas, ou outra forma de vida simples. Acontece que o homem faz parte de uma pirâmide, onde ele ocupa o ápice e cuja base é constituída pelos elementos minerais deste planeta terra, tendo entre a base e o ápice toda a gama de formas biológicas, que se conjuram para através do homem levar a vida biológica para outros cantos deste universo, permitindo assim à organização biológica sobreviver além do nosso planeta.

Se em determinado momento não há como sustentar uma humanidade constituída de muitos elementos ou corre-se o risco de extinção por fome ou inanição ou matar-se-á um bocado destes indivíduos. Como eliminar um pouco dos indivíduos? Não importa, não importa mesmo, se com epidemias, com guerras, com catástrofes. Importa sim que os sobreviventes tenham melhores condições para continuar o caminho.

Há que se entender também que em certas ocasiões o conhecimento, a técnica, estejam atrasadas em relação ao ‘cronograma’. Urge então que se apresse. Nosso tempo é limitado nesta existência; ou atingimos nossa capacidade de colonizar outros mundos a tempo ou pereceremos todos. Por isso muitas vezes a guerra ou os cataclismos são necessários; eles também são fatores de sobrevivência, porque são meios de promover certa harmonia num momento de urgência e podem acelerar o processo que nos libertará desse nosso planeta, embora seja bem mais provável que a vida mineral é que vá colonizar outros mundos. Contudo, o que realmente muda a evolução dos seres humanos, como sociedade e civilização, é o pensamento, é a curiosidade.

Mas, por favor, entenda a dinâmica da vida; não saia por aí fazendo guerra a todos com o saudável propósito de impulsionar o desenvolvimento da humanidade ou promover uma pretensa harmonia e assim salvar-lhe a existência. Você talvez não chegue a viver muito para usufruir tanto heroísmo, e corre o risco de ficar na história como um louco ou um desalmado gangster.

A guerra na verdade existe apenas em função da ganancia, do desejo de dominar que ocorre em certos indivíduos humanos. Talvez isso seja herança dos tempos em que vivíamos em bando e admitíamos um líder, um chefe tribal.   

- Você nem parece uma menina, tem cada idéia! Então a destruição e a dor são importantes para nossa sobrevivência? Será que a natureza seria tão burra a ponto de fazer nascerem animais imensos para depois ter que destruí-los, ou fazer nascer uma quantidade de indivíduos muito acima do que poderia sustentar para depois promover uma chacina? Me desculpe, mas agora você foi longe demais, e se quer saber, não tem lógica alguma o que você acabou de dizer.

- Bom se não tem lógica precisamos ver em que sistema lógico você está pensando, mas deixa para lá este negócio de lógica – não lógica. O que eu disse está certo, mas é claro que não estou descrevendo todas as circunstâncias, estou procurando ser bastante concisa para que talvez eu me faça entender.

É muito difícil que nós, com nossos irrisórios conhecimentos possamos entender os desígnios da natureza. É como dizem os cristãos: Deus escreve certo por linhas tortas. Está certo este ditado, assim como está certo também quando dizem que a ninguém será dado conhecer os desígnios de Deus. Assim é a natureza (mas pelo amor de Deus, não estou chamando natureza de Deus).

Ao princípio interessava formas simples que sobrevivessem num ambiente inóspito e parco em recursos vitais; a seguir tornou-se importante a diferenciação em múltiplas formas, que em diferenciando-se tornam-se mais capazes de sobreviver em diversas condições ambientais; posteriormente passou a interessar que a vida se continuasse em todos os ambientes oferecidos pelo planeta, e em seguida, que as formas constituíssem indivíduos extremamente fortes e, por isto, grandes. Depois a seqüência exigiria destreza, capacidade intelectiva, desenvolvimento tecnológico, armazenamento de um volume enorme de dados vitais. Esse raciocínio poderia descrever um modelo bem simples do desenvolvimento das espécies.

Satisfaz? É provável que não, né mesmo?

Veja como as explicações podem ser simples, e podem até satisfazer, mas será que são verdadeiras?

É assim que devemos pensar sempre, inquirir sempre, duvidar sempre, buscar sempre novas alternativas. A explicação que satisfaz pode ser suficiente para alguns, mas para nós deve ser apenas uma das possibilidades.

Por isso, por ser apenas uma possibilidade é que não podemos tomar o que chamam “ leis da física” , ou da ciência, como sendo uma verdade. O universo não tem obrigação de seguir leis propostas por nós humanos. Então temos que ter sempre em mente, sempre ao alcance de nosso pensamento a noção de que tudo é apenas possibilidade.

- Você fala da vida e da morte, fala dos sentimentos, do amor, da história, da cultura humana, mas sempre com um conteúdo crítico muito grande, praticamente negando tudo aquilo em que acreditamos, e que é a base de todo o nosso pensamento.

- Não quero discordar de você, na verdade sou mesmo muito crítica com relação a tudo, pois me é muito difícil pensar em algo isoladamente, como é o costume dos pensantes. Isolar para facilitar um raciocínio, para facilitar a compreensão. Talvez este método seja bom, talvez facilite mesmo, mas não é o melhor, não para mim, que me acostumei a pensar no todo. Assim cada vez que penso numa parte não consigo me esquecer do todo e vice-versa, não consigo pensar no todo sem levar em consideração cada uma das partes. Se para você isso é complicado é porque você ainda não tentou seriamente; um pouco de prática tornará muito fácil esta forma de pensar. 

Quando nascemos trazemos conosco um manancial enorme de conhecimentos que nos são passados pelos nossos antepassados de todas as formas de vida. Instinto é isso, No entanto nós não temos acesso cognitivo a este conhecimento original, a não ser que aprendamos a buscá-lo. Nossa vida é aprendizado constante, tudo nós temos que aprender. Mas podemos aprender de maneira correta ou não. Se ao início formos treinados a pensar, passaremos nossa vida pensando, se ao contrário nos ensinarem a simplesmente sermos espectadores da vida nós assim seremos. Mas como o aprendizado é contínuo, com o passar do tempo todos nós podemos modificar aquela condição inicial e deixarmos de ser expectadores para sermos pensadores. Para alguns talvez seja bastante a vontade, mas para a maioria é necessário algo que o impulsione, um ‘start’. E todos temos as mesmas capacidades, é só questão de treinamento. 

E no fim tudo acaba se tornando um hábito, após o treinamento a aprendizagem e o treinamento. Acabamos fazendo tudo por hábito e nos sentimos bem quando estamos dentro de nossos hábitos, do nosso costume. É como dizem, dentro de nossa zona de conforto.

Eu não falo só por falar, embora goste imensamente de falar. É que o diálogo nos favorece muito em nosso desenvolvimento intelectual. Lembra da dialética? Mesmo que você converse com um beócio você estará aprendendo alguma coisa e, se quiser, poderá tirar bastante proveito disso.

- E sobre o que se deve falar?

- Aí está uma pergunta que eu não posso responder. Acho que se deve falar de tudo, sem rodeios. Não há porque ser diferente, todos os assuntos são palpitantes. Acontece que falar só de futebol ou de política às vezes também cansa, mas pelo menos não traz qualquer conseqüência. É claro que sem conseqüências fica mais tranqüilo para todos, então todos se comportam assim. Quer dizer todos não. Você, por exemplo, é diferente e se interessa por outros assuntos; pelo menos é o que me parece.  
Agora, se esta conversa não te agrada, podemos parar também.   

Confesso que fiquei meio parado. Afinal cheguei onde eu queria desde o início. Finalmente aquela menina iria parar de falar e eu poderia seguir minha viagem costumeiramente, pois fora isso que eu queria quando iniciei este monte de perguntas. Na verdade me enganara porque a cada pergunta mais ela falava, mais gostava. Interessante que naquele momento isso me passou rapidamente pela cabeça, não claramente como agora me dou conta, mas simplesmente me veio este pensamento de ter me livrado daquela menina, mas assim como num relance, porque mal me passava tal pensamento e voltei às perguntas, sem me dar realmente conta disto, como não se tivesse havido tal intervalo.

- Toda conversa é realmente interessante, inclusive a conversa sobre política e futebol, não é isso? Não dizem que o homem é um ser político?

- O homem é um ser político por ser um ser social. Mas acredito que mesmo os seres primários, simples, que não constituem sociedade de tipo civilizada, parecida com a nossa, são políticos. Existem muitas formas biológicas que se organizam em sociedade, não é só a forma humana que cria uma sociedade. Mas em todas ocorre a política e o ser político.

Não há sociedade sem liderança. Lembra da história da sobrevivência do mais forte? Cada vez que houver mais de um indivíduo em qualquer forma de associação um deverá ser o líder, pois que como não há dois indivíduos iguais, haverá também diferenças em suas capacidades de sobreviver e conseqüentemente um terá maior capacidade neste quesito que o outro, e este será o líder.

Evidente que as lideranças existem para levar o rebanho sempre a bom pasto, para levar sempre à comunidade a defesa e os meios necessários para sua sobrevivência. Contudo, historicamente, surgem lideres que desempenham papéis diferentes frente à sociedade humana, mas uma analise superficial será suficiente para nos mostrar que sua liderança sempre interessa à sobrevivência da espécie, mesmo que seus atos aparentemente não demonstrem isto. Evidentemente também existem falsos líderes, líderes momentâneos cujo interesse é pessoal, nunca social. Existem líderes bem intencionados, mas incompetentes, levando seus liderados ao sofrimento e à dor. Existem líderes de todos os matizes, até aqueles que desejam mesmo o mal, que enganam, trapaceiam, vestem personagens que se mostram diferente do que realmente são, com discursos bem elaborados para convencer os incautos, os menos preparados.

Os líderes que se propugnam ao mal conseguem muitas vezes se manter por longos períodos e às vezes adquirem enorme poder. Às vezes é muito difícil desmascarar um líder ligado ao mal; eles são exímios comunicadores, atores de primeira grandeza.
É claro também que à humanidade interessa glorificar aqueles que aparentam propugnar pelo bem, segundo o conceito de bem vigente naquela sociedade e naquele momento. Assim se criam os heróis e os vilões, que, logicamente, são heróis e vilões de acordo com os interesses daquela sociedade, naquele momento. O demônio nada mais é que um anjo decaído. Todos os líderes são e se comportam como políticos.

Assim vai se organizando a sociedade na polis, assim ela vai se estratificando, assim ela vai elegendo os lideres que a ela interessa a cada passo, assim vai se desenvolvendo o ser político, porque cada ser busca também sua sobrevivência dentro de sua sociedade, e suas ações para ser aceito, para conseguir essa sobrevivência é uma ação política. Os seres são políticos, todo homem é um ser político, porque precisa ser aceito, precisa pertencer. Pelo menos até que chegue o momento em que terá que dar sua vida em prol desta sociedade. Assim caminha a humanidade.

Não tenha dúvida de que cada indivíduo dará sua vida pela vida de sua sociedade, de sua organização vital. Nenhum ser se organiza em sociedade porque julgou voluntariamente ser melhor assim. Todos os seres se organizam, tudo se organiza, numa organização que é sempre caótica justamente porque não se organizou pela vontade de seus membros. A organização do universo é caótica, é vibrante. Mas a um observador que se coloque fora deste universo e o observe como um todo parecerá perfeita, completamente harmônica.

Também ocorrerá isto com a sociedade humana. Nós que vivemos e a observamos por dentro a julgamos completamente caótica, e injusta. Mas a um observador à distância poderá parecer harmônica, completa, e justa. 

Agora, como sempre, as leis que regem o comportamento social, as teorias que tentam explicar os relacionamentos sociais, são apenas observações nossas, são meras criações nossas, para tentarmos de alguma forma nos encontrarmos nessa mesma sociedade. Mas são criadas porque assim é necessário para que esta sociedade se mantenha e o interesse de se manter a sociedade não é nosso, por nossa livre vontade, mas por nossa necessidade imposta pelos objetivos da existência. O livre discernimento do homem é apenas mais uma utopia, logicamente criada por nós.

Mas se ao fim de tudo sobrevivermos será atingido o objetivo e se ao invés da forma humana sobreviver outra forma biológica, o objetivo terá sido atingido da mesma forma.

- Peraí, você está dizendo que a sociedade humana é harmônica e justa? Onde é que existe justiça? E harmonia? Só se for em Marte.

- Pois não é bem assim. O que eu disse é que ‘dá a impressão’, parece que é justa, harmônica, mas só para quem vê de fora, de longe.

Na verdade não existe justiça. Não existe qualquer tipo de justiça. Não há justiça divina, não há justiça natural, não há justiça social. Isso não impede nem desmerece quem luta por uma justiça social, pois me parece bem claro que todos os seres são iguais, todos os elementos que constituem o todo são importantes, pois que alterando um dos elementos, subtraindo-o ou adicionando outro, o todo já não será o mesmo, será completamente diferente. Então todos os elementos, todos os seres que constituem uma sociedade, têm o mesmo valor e, portanto, merecem ser tratados de modo equânime.

A sociedade humana é como um gás preso num recipiente. Pode parecer estável, porque acomodou-se ao seu estado de temperatura e pressão, ocupando todo o volume a ele ofertado, mas na verdade está sempre em ebulição, seus átomos estarão sempre em movimento browniano, estará sempre procurando aumentar sua entropia, enquanto estará ainda procurando seu equilíbrio. É a velha dicotomia do universo que se repete na sociedade humana. 

E porque os seres humanos deveriam se preocupar apenas com o ganho, com valores, com sobrevivência individual? Se todos têm o mesmo valor a preocupação deveria ser com a justiça social, com o bem estar do grupo, da sociedade. Se somos como um gás num balão de que adiantaria destruir uma ou outra molécula, ou um zilhão de moléculas para ganhar alguma vantagem? Não seria melhor que vivêssemos em uma sociedade harmônica, onde todos se respeitassem e pudessem ser felizes em sua convivência?

Se houvesse justiça, se não houvesse tanta ganância, tanto egoísmo, será que as pessoas não seriam mais felizes? Então por que não viver assim, para que impor esse tal de capitalismo que só dá a uns poucos, deixando a imensa maioria sofrer e sobreviver com dificuldades inimagináveis?

Isso me parece muito cruel, chega a ser tortura, sadismo.

- Essa foi boa, agora você vem falar mal do capitalismo. Estou pensando que você chegou onde queria, já que começou a conversa falando em economia... Você é economista? Perguntei já me arrependendo da bobagem que falara, afinal uma menina tão jovem não poderia jamais ser uma economista.

- Não, claro que não; só queria puxar conversa, como já disse. Manias. Mas até que gosto um pouco dessa tal de economia, embora tenha a convicção de que a economia não explique direito as coisas de nosso mundinho.

Agora se pensarmos bem não há porque admirar um sistema econômico que favoreça alguns gatos pingados em detrimento de toda a população. Não seria mesmo justo. Mas, como falei antes, não existe justiça. Se de algum modo se pudesse implantar um sistema justo, que pudesse dar a cada um naquela sociedade uma vida mais segura, mais feliz, é bem provável que surgiria uma mente querendo usufruir ainda mais, retirando de alguém para seu benefício próprio e exclusivo. É a encarnação do que se chama o mal. E então se iniciaria a destruição do sistema e da justiça que se teria alcançado se essa mente perversa, esse mal não fosse ceifado imediatamente dessa sociedade.

Acontece que o mal existe, embora apenas entre os seres humanos, porque o mal está dentro dos seres humanos e é criado por eles. Quando alguém resolve aproveitar-se de sua força, de sua astúcia, de seu conhecimento para explorar um semelhante, ou qualquer outra coisa em seu benefício, ele está criando o mal. Quando qualquer pessoa se coloca à frente dos demais, quando se considera de qualquer forma melhor que os outros, quando julga merecer mais que qualquer um, essa pessoa está criando o mal. Tudo que prejudique a existência é o mal. Tudo que prejudique alguém ou alguma coisa qualquer do universo é o mal.

Então o tal de capitalismo, o ganho ilimitado às custas de outros, penso que seja a representação do mal que não pode ser benéfico para ninguém, a não ser para aqueles que obtém assim seu enorme lucro mesquinho e destrutivo.

- Porque é tão importante a sobrevivência do homem?

- Não é que seja importante a sobrevivência do homem, a sobrevivência de tudo que existe é importante. O todo é constituído de suas partes, portanto é preciso que cada parte sobresista para que o todo continue a existir. Evidentemente que se tiver que haver uma escolha entre a sobrevida de uma parte ou a sobrevida do todo esta parte será imediatamente eliminada. Há ocasiões em que um componente do todo passa a ser nocivo, passa a não poder mais fazer parte do todo, sob pena de destruir justamente aquilo em que ele é parte integrante. Noutras ocasiões um elemento do todo tem que ser excluído por interesses diversos do seu, mas acorde com os interesses do todo, ou ainda pode ocorrer que uma parte tenha que ser substituída visando a melhoria do conjunto.

Nós não entendemos ser de primordial importância a sobrevivência do homem, ou mesmo de qualquer espécie viva, mas entendemos ser sumamente importante a sobrevivência de alguma forma de vida biológica, qualquer uma, mesmo que seja um vírus.

Por outro lado você deve imaginar que se tudo é eterno não haverá nunca o extermínio da organização biológica, porque ela, como tudo o mais, continuará existindo eternamente, em cada um dos seus momentos. Isto é absolutamente verdadeiro. Mas observe que a infinitude de tudo está na atemporalidade universal, pois que o universo no seu todo é atemporal, mas na dinâmica interna deste universo existem relações e modificações constantes, que seguem a regra básica do binômio existir/fazer existir e que exigem a continuidade que tende também ao infinito. Até que ocorra, por algum motivo, uma mudança na essência do universo que altere sua dinâmica este contínuo deverá existir.

A atemporalidade do universo é um fato, assim como é fato a multiplicidade de suas dimensões, das quais só conhecemos quatro, e com muito custo conseguimos imaginar a quinta. Evidente que com estas limitações mentais nos fica muito difícil compreender um pouco do todo. O nosso conhecimento é realmente muito limitado, mas nos serve para que possamos seguir esta continuidade de sobrevivência. Se estagnarmos nosso conhecimento estaremos desrespeitando este contínuo e isto não nos é dado escolher, assim como não é dado a um asteróides o direito de escolher sua rota.

E antes que você pergunte vou lhe dizer que a inteligência não é atributo exclusivamente humano. Ela está em todos os componentes do universo, mesmo na sub-sub-sub-partícula atômica que nós nem ousamos conceber. Portanto existe inteligência fora deste nosso planeta Terra, portanto existiram inteligências no próprio passado remoto deste nosso planeta, portanto existirá inteligência por todo o infinito, em todo tempo e lugar, em todas as dimensões. Mas, olha que interessante, a natureza não é inteligente. E nem burra : a natureza é o que é; não está certa nem errada. Ela simplesmente é.

E direi mais, existem formas que entram em contato conosco em diversas dimensões, o que talvez seja aquilo que chamam de visitantes do espaço. E nos ensinam, nos transmitem suas memórias, seus conhecimentos, e nos perturbam, e nos prejudicam também, assim como qualquer vizinho é capaz de fazer. Em algumas ocasiões temos consciência destes contatos, em outras não. Mas nós também transmitimos nosso conhecimento, nossa memória a outros seres, mesmo aqui, no nosso espaço tempo limitado e também não temos consciência disso.

E é claro que existe inteligência em seres não biológicos. Hoje se fala em inteligência artificial, e essa inteligência existe e poderá vir a ser dominante, porque, sendo mineral, suas exigências são bem menores que aquelas dos seres vivos. E a vida mineral, que contém a inteligência mineral, tem muito mais probabilidade de habitar com sucesso um mundo diferente, inóspito a seres humanos, inviável aos seres biológicos como nós. Isso é evidente.

- Eu não entendo. Se você diz que tudo é eterno, porque esta necessidade de sobreviver, de manter a vida biológica, como você diz? Por que tudo deve estar voltado para manter uma continuidade se você diz que não há o tempo? Neste caso não poderá haver continuidade, porque continuidade é seqüência e se há uma seqüência então existe um tempo.

- Tudo é eterno porque no universo não existem dimensões, não poderia haver, posto que o universo é infinito. Se ele é infinito não poderá haver limites a este universo, em qualquer possível direção ou dimensão que se possa imaginar. Se de alguma forma alguém puder medir qualquer dimensão do universo ele conseqüentemente não será infinito.

Agora imaginemos que o universo tenha alguma dimensão qualquer. Neste caso, em algum ponto desta dimensão ele seria finito, ou seja, teria ali o seu ponto final. Ora além deste ponto final terá que obrigatoriamente existir alguma coisa, nem que seja o nada absoluto. Mas o que seria o nada absoluto? E mais, qual seria a dimensão desse nada absoluto? E se existisse um nada absoluto isto também não pertenceria ao universo, que é o todo? Então voltamos ao ponto inicial, ou seja, tudo que existir ou não existir alem do universo pertence ao próprio universo e não teria dimensões e seria, portanto, uma continuidade da infinitude do universo.

Alguém poderá argumentar, no entanto, que poderiam existir outros universos, em outras dimensões. Este pensamento tem até um certo valor relativo, mas volta a fechar o mesmo ciclo vicioso que mostramos antes, ou seja, se existirem outros universos, estes universos farão parte do mesmo universo nosso, porque o universo é único, e se constitui de tudo que existe. A possível existência de outros universos redunda na ampliação do próprio universo, provando mais uma vez que ele é infinito, e como tal, imensurável.

Mas as dimensões não existem a nível universal, embora suas partes, quando vistas isoladamente, tenham dimensões, sejam finitas, tenham começo e fim, mas naquela forma específica. Toda essência sempre terá existência, visto que nada pode evaporar e deixar de existir assim como o todo. Seus elementos constituintes continuarão a fazer parte do mesmo universo e podem ter dimensões, mas o todo, o universo não as terá.

O que nós entendemos como continuidade está limitado às dimensões em que nós podemos ter consciência que, se diga, são mais do que quatro. O universo tende a manter-se indefinidamente, e suas partes tendem a manter-se também indefinidamente, e tendem a manter suas formas e suas essências.

A seqüência, as modificações observáveis por nós, a nossa noção de tempo, ou a nossa noção de dimensões, existem para nós, porque nós ainda não conseguimos ter a concepção do universo. Tudo aquilo que o homem possa imaginar como sendo o universo, desde o ‘big bang’ pode ser apenas um mísero átomo do universo. No entanto nós fazemos parte dele, cada um de nós é o próprio universo e não poderemos modificá-lo. E é dado que nós sejamos assim, que tudo seja como é, e que sofra as modificações que tenha que sofrer, e que se organize como tenha que se organizar, e que mantenha-se enquanto tiver que manter-se.

Veja, isto não é fatalismo, não é determinismo, mesmo porque se não há dimensão, tudo existe, existiu e existirá ao mesmo tempo.

Sofisma? Pode até ser, mas acredito em tudo isso, com fé verdadeira.