Estela. Capítulo IV – A ESTRELA

Escrito por Webmaster

Estela

 

IV – A ESTRELA

 

E nos dias que se seguiram continuei a me lembrar constantemente daquela estranha conversa. Cada coisa que eu lia, cada vez que conversava com alguém ou ouvia alguma coisa no rádio ou na televisão e que continha uma de suas palavras, ou ainda quando por qualquer motivo um de seus temas chegava aos meus ouvidos eu me lembrava imediatamente daquela noite e de suas palavras e então levava horas para conseguir me desligar novamente daquela lembrança.

Muitas vezes não conseguia me concentrar no meu trabalho porque ficava divagando mentalmente, me lembrando das palavras daquela menina. Isto me atrapalhava bastante. Até em casa as coisas já não eram como antigamente; não prestava a atenção às pessoas ou ao que diziam e, quando conversava, quase sempre me surpreendia a utilizar as idéias da menina para justificar minha nova forma de pensar.

Só depois de alguns meses é que percebi que eu realmente mudara minha forma de pensar. Já não aceitava tudo que me diziam, contestava sempre, às vezes sem a mínima necessidade, e procurava de uma forma ou de outra transmitir um pouco do que ouvira dela. Mesmo quando lia alguma coisa sem querer estava discordando do autor, dizendo a mim mesmo, como que querendo dizer a ele, que estava errado, porque não fora assim que a menina me explicara.

Criei muitas complicações para mim mesmo, pois, acredito que estava ficando doente. Não conseguia trabalhar, não conseguia dormir direito, passava as noites pensando na menina e, quando dormia, sonhava continuamente com suas palavras. Nos sonhos ela me aparecia como que em carne e osso; eram sonhos extremamente vívidos, que me deixavam extenuado. Acordava bastante cansado, como se não tivesse dormido nada. Pensava em sua palavras até durante as refeições; muitas vezes simplesmente parava com o garfo no ar durante longos minutos em que conversava comigo mesmo sobre a menina e suas ideias.

Foi nesta época que percebi estar falando sozinho. Percebi não, perceberam por mim, pois começaram a me chamar à atenção de que eu estava falando sozinho. Meu Deus! Estaria eu ficando louco? Comecei a temer por minha saúde, física e mental, comecei a ficar extremamente preocupado, mas não encontrava meios de me livrar desta situação.

Já havia decorrido cerca de dois anos daquele encontro noturno e, no entanto, tudo que acontecera naquela noite ainda estava em minha mente como se estivesse ocorrido há poucas horas. Já desanimado, resolvi então transcrever aquela nossa conversa.

Não sei porque demorei tanto tempo para tomar esta decisão. Parece que tudo que está ligado à lembrança da menina é muito complicado. Não sei explicar porque, mas tudo me parece muito complicado. A principio tive receio de não conseguir transcrever nossa conversa corretamente. Pensei que talvez não me recordasse bem tudo que ela havia me dito e que talvez não conseguisse externar adequadamente seu pensamento. Para mim aquela menina tinha tanta importância, era tão bonito o que ela me falara, que tinha medo de não conseguir transmitir corretamente suas palavras.

Mas vim a me surpreender novamente quando iniciei esta transcrição: simplesmente suas palavras me vinham à mente de forma clara, como se as estivesse escutando naquele exato momento em que escrevia. E assim foi durante todo aquele tempo em que me dediquei a este trabalho.

Só ao fim de minha empreitada é que me lembrei de que não sabia nada sobre aquela menina, não sabia sequer o seu nome, e, foi então, que me lembrando da noite que passei ao seu lado escutando-a, uma noite triste, chuvosa, que ao fim se transformara numa noite luminosa, que resolvi dar-lhe um nome: Estela – estrela de toda noite.