Estela. Capítulo III – A LUZ

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Estela

 

III – A LUZ

 

Repentinamente assustei-me com uma quantidade imensa de luz que invadiu aquele lugar onde me encontrava. Foi como que um choque, como se acordasse repentinamente de um sono muito profundo, a ponto de não saber onde realmente me encontrava. Gastei bem alguns minutos para reconhecer que estava dentro de um ônibus e bem mais alguns minutos para me lembrar que estava viajando e de qual era a viagem e qual o ônibus em que estava. Tive que me espreguiçar um pouco, balançar um pouco os braços e pernas, para enfim poder colocar minha cabeça no lugar.

Olhei então pela janela para tentar reconhecer em que trecho da estrada nós nos encontrávamos. Levei mais alguns minutos para reconhecer que estava amanhecendo e que as luzes provinham das luminárias de um posto da Polícia Rodoviária, já quase dentro de São Paulo.

Puxa, a viagem havia transcorrido quase que como um sonho. Eu não havia percebido nenhum momento sequer daquela que deveria ter sido uma viagem enfadonha desde que deixáramos a rodoviária, debaixo de chuva. Havíamos viajado a noite inteira, o ônibus deveria ter feito pelo menos duas paradas na madrugada e nem isso eu tinha percebido. Por isso estava com o corpo todo dolorido, talvez tenha passado toda aquela noite numa mesma posição.

Muito estranho! Jamais em tantas viagens esta situação havia ocorrido comigo. Nunca passara uma noite de viagem sem identificar cada trecho da estrada, cada solavanco do ônibus, cada mudança do tempo, quase sempre olhando pela janela e dormindo aqui e acolá. Pior, nem as paradas eu havia notado; não desci uma única vez, não tomei nenhum café dormido e – pasmo – nem fui ao banheiro, não fiz xixi nem uma única vez.

Todos esses pensamentos me assaltaram assim rapidamente, como num flash. Talvez não saiba me expressar bem, mas não elaborava estas conjecturas, não estabelecia nenhum raciocínio lógico, apenas fui assaltado por esta torrente de pensamentos. E aí me veio um pensamento sobre algo que ele teria dito que envolvia celular ou coisa assim, e de imediato perguntei a respeito.

- Bem, o que disse foi que o celular e as redes de internet, as redes sociais, são ferramentas de dominação, mais eficazes e mais baratas que a religião ou a força física...

Mas subitamente adormeci, ou pelo menos acredito que foi isto que aconteceu. Dormir talvez não seja bem o termo, apaguei, naquele tipo de sono que, embora muito curto, apenas alguns minutos ou segundos, sei lá, é extremamente profundo, nos deixando completamente atordoados quando acordamos.

Não sei quanto tempo foi este sono, mas deve ter sido muito rápido, porque já estávamos chegando ao terminal e, quando acordei, com o motorista me sacudindo, já irritado, me dizendo que fazia cinco minutos que tentava me acordar e que deste jeito teria que pagar multa por demorar-se na plataforma de desembarque.

Desci completamente zonzo, completamente grogue e só então me dei conta que todos já haviam desembarcado, pois não havia mais nenhum dos passageiros por ali, somente a minha bagagem (uma única mala) na plataforma me aguardando. Notei o ônibus saindo e procurei me orientar um pouco. Devagar fui me encontrando; tirei um cigarro, acendi, e comecei a fumar com um prazer intenso. Só agora me lembrei que havia passado a noite toda sem fumar nenhuma vez.

E a menina? Onde estava a menina?

Mas Deus, eu não a vi desembarcar, mas também não vi ninguém desembarcar, pois havia dormido como um poste bem no finzinho da viagem. Mas que besta, passei a viagem toda acordado e fui dormir quando o ônibus já entrava na rodoviária.

Bem, não adiantava nada também ficar ali parado, olhando para todos os lados. Daqui a pouco iriam achar que eu era um daqueles caipiras que desembarcam às pencas e que não conhecem nada, e, então, iriam querer me assaltar. Peguei minha malinha, minha pasta, e fui andando.

Lembrei-me da revista, que eu nem cheguei a ler. Puta merda, deixe-a no ônibus. Agora é tarde, vou ter que comprar alguma coisa para ler no metrô, senão não tem como aturar meia hora naquele buraco.

E a menina? Diacho, não conseguia esquecer a menina. Mas nem seu nome eu perguntei (burro), não perguntei onde morava, seu endereço, telefone, sei lá, qualquer coisa, afinal o papo tinha sido bom e, quem sabe, poderíamos continuá-lo em alguma outra ocasião. Mas como, se eu não tinha a mínima idéia de como encontrá-la.

Fiquei olhando em volta, para todo lado, por cima das cabeças, tentando alcançar as pessoas que iam bem à frente, numa tentativa besta de avistá-la, mas, claro que em vão. Ela já deveria estar muito longe, pois afinal me demorei bastante para descer do ônibus. A esta altura ela já deveria estar chegando em sua casa. Mas foi mesmo muita burrice minha não ter perguntado nada sobre ela.

E durante todo o caminho para o apartamento aquela menina não saia de meu pensamento. Comecei a me lembrar de quase todo o diálogo que tivemos, e me lembrava palavra por palavra. Mas estranhamente não me lembrava de quase nada de seu rosto, de suas feições. Lembrava seu porte, sua figura, sua voz cristalina, suas palavras, seu jeito estranho de falar, mas não me lembrava muito bem de seu rosto. Nunca, até hoje, consegui me lembrar bem de seu semblante.

E até chegar em casa, não parei de pensar em nossa conversa. Esqueci até de comprar algo para ler no metrô, e seria mesmo dispensável porque a viagem foi tão rápida que nem notei e quase perco a estação em que deveria descer. E depois de já estar em casa tomando meu café da manhã continuava me lembrando de cada pedaço de nossa conversa. Tive até dificuldade para pegar no sono, mesmo estando terrivelmente cansado. Todo aquele diálogo no ônibus não me saia da cabeça.

Por fim adormeci, e foi um sono pesado, profundo, sem sonhos, que atravessou todo o dia. Quando acordei, morto de fome, já era tarde daquela nova noite.